
Criada entre becos e vielas, nem sempre sua fé foi suficiente para sustentar a coragem. Andava lentamente guiada pelas sombras dos barracos que ornamentavam seu jardim de desprazeres. Forte menina outrora sustentou o sorriso que já alegrou boa parte daquelas pessoas descabidas que por ali perambulavam. Outra época, outra vida quem sabe.
Vai se desenhando novamente: coração doído, alma perdida. Vai lá, escondendo seus passos por entre os pedregulhos do beco que adentra e encontra ali o consolo necessário, então chora. Percebe como a dor corta, dilacera e pune, mas mesmo assim chora, porque as lágrimas ainda são possíveis, ninguém as tirou ainda.
Doce criança, ingenuidade nem mais faz sentido, lhe negaram esse direito também. Doce mesmo, era quando descia correndo as escadarias, com o vento levando seus curtos cabelos negros, com os olhos amendoados percorrendo cada rosto, cada tábua que se despregava e revelava a intimidade dos casais que renunciavam os bons princípios.
Lá embaixo, moleques se misturavam com raparigas, e enquanto uns rolavam as bolas, outros ornamentavam sua bonecas, dividindo-se entre os flertes inocentes que rondam a infância. A menina ainda lembra daquele menino de pele dourada e olhos redondos que a convidava para brincar de roda ou empinar pipa. Recorda dos fins de tarde, onde deitavam naquele terreno baldio no sopé do morro, lembra do contraste das peles, dos risos distraídos, dos planos elaborados, o carinho inocente e o olhar de cumplicidade. Tenra lembranças.
Hoje, o aconchego que lhe abriga, é o sopros dos fantasmas que a atormentam, o olhar vazio dos estranhos que lhe cercam enquanto caminha sem rumo entre os becos, onde as tábuas se despregam e revelam a dor alheia.
Ah criança, se fosse possível lhe tomaria em meu colo e te aconchegaria no meu abraço, te encheria de afetos e mimos. Se fosse possível reinventaria tua realidade, lhe faria um lugar colorido, onde teu sorriso seria distribuído todo dia e o melhor presente seria te ver dançando sobre as fantasias que você desenhava no caderno desenho. Outra época, outra vida quem sabe.
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