quinta-feira, 10 de março de 2016





Quando lá no fundo o horizonte aparece com cara de sono, levantando-se pouco a pouco espremendo o amarelo e laranja, afundo meus dedos na pequenas gramas, no insistente orvalho e chego a terra.
Preciso sentir aquilo, aquela coisa da qual dizem que viemos, aquela vida que brota do centro do mundo e que se espalha pelos átomos e moléculas fazendo com que tudo gire.
Não por muito, esqueço daquelas pequenas coisas gostosas que acontecem entre o despertar do burburijo da vida e o silêncio da noite. Os tons das cores, o balançar das mãos, o cheiro do café, o saboreio do bolo, o silêncio dos olhos, o virar de páginas, o vazio, o medo, a angústia, o beijo estralado.
Não por muito esqueço e perco a razão ao tentar achar justificativas plausíveis ao que acontece quando a angústia e a incerteza percorrem preguiçosa e sedutoramente as linhas do destino ou do acaso. 
Aperto play. Aperto o coração e a ferida com dois dedos e faço dancinhas ridículas pra ver se o destino se perde e acha umas entrelinhas com menos nós.
Menos nós, menos nó. Piso nas graminhas, sentido o friozinho gostoso que salpicam e dançam - também ridiculamente- na palma dos pés. E desenho com os dedos no ar o sol que vai nascendo.
Rodopia. Ri. Ridículo. 


domingo, 10 de maio de 2015

-






A minha pele toca a tua pele, e toco todo o resto tateando tudo do teu todo. Tudo é tanto que nem se fosse muito seria suficiente, nada seria mais inteiro do que você entregue pra esse tanto que somos nós.
Nós: inteiros, seletos, completos, serenos, sem nada. Nós com nós se bastando do tudo que o outro é, de tudo que nos constrói, do que somos e seremos quando por todo, nos bastamos.
De tudo que somos, e do todo que nos cerca, somos tudo que o outro, depressa atravessa.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

-





Te deixo. Te deixo ficar aqui, por perto de mim, pra poder ver teu sorriso largo e olhos mansos. 
Você deixa um beijo na testa, um enlaçar de cintura, a toalha jogada, as cobertas revoltas. E eu deixo porque a sua deixa é justa. 

Te deixo enrolado nos meus cabelos, limpando a bagunça, envolto no meu corpo, jogado no sofá. Deixo a chama acendendo e indo e se mantendo e se apagando e reacendendo. Deixo os clichês de lado, as músicas românticas, o sedentarismo, o chocolate. Te deixo em mim.

Te deixo me olhar profundamente ou ressabiadamente, com indagações e franquezas- algumas desnecessárias. Te deixo vaguear  pelo meu corpo e o embalar carinhosamente, enquanto a única coisa que se ouve é a noite lá fora. Te deixo respirar ofegante ou calmamente, enquanto te conto as utopias.

Deixo. Deixo porque é recíproco, porque vaguear as noites falando ou abraçando é suficiente pra dormir segurando a tua mão, o teu cabelo ou teu sono. 



segunda-feira, 24 de novembro de 2014

-


Escorre por todo o corpo e desce lentamente descobrindo todas as linhas que deixaram de ser tocadas. Escorre por entre as nuances que cintilam ao sol e deixa-se conduzir pela leveza do toque que percorre e desvenda a doçura do desejo que arrepia e adoça.
Não por engano estava ali, por entre sorrisos e malícias e o cheiro da grama verde depois de revirada pelos corpos em sintonia, harmonia e leveza. Sentir a água secando junto ao corpo vagarosamente, sentir a mãos acariciando a outra amorosamente e ver o brilho do outro cintilando junto ao teu. 
Não por engano ou insensatez se permitiu as sensações, à brisa, às gotas, as mãos, as costas,os olhos , a água.O barulho do sossego quando tudo escorre por entre o corpo, as pernas e o mundo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014





Morri. E nem tudo é tão ruim como costumavam dizer.
Morri porque desejei um descanso eterno por entre as árvores já desgalhadas daquele bosque que fica perto do vazio, tão vazio que encontrou minha alma  e entrelaçou-se. Não mais deixou-me ir. Nem quis.
Morri porque já não suportava olhar pelos vazios que vagavam desumanamente nas ruas abafadas daquela cidade em ruínas, nem sabiam eles, mas clamavam por ajuda, por misericórdia.
Morri porque aqui, entre às fúnebres árvores deste bosque minha insensatez não me acovarda, nem é amordaçada. Aqui a liberdade me prende , me enche e me esvazia.
Morri porque não sou uma alma frenética em busca de qualquer ideal vazio.
Morri porque vagar entre os galhos secos e o clima fúnebre, me lembra mais vidas do que o  desespero em que se encontra a humanidade. 

Foto: Katerina Plotnikova

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014


Sempre fora assim, tão solta e leve quanto a brisa que sopra de manhã e embala seu sorriso após soprar a fumaça do café. Talvez, vez ou outra, até pudesse pendurar um sorriso triste, mas isso era para poder se camuflar na multidão, compartilhar das ambiguidades que desatinam os miseráveis.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

-

"Mas eu cuidarei de você, sempre."
Essa foi a última jura que  proferiu, nunca soube se foi verdadeira.
Muito antes de todo o vinho que já consumimos, ainda nos olhávamos com tamanha ternura, que os mais céticos se enterneceriam diante da cena, do simples roçar de mãos.
 Foi um dia até poético: outono, brisa fresca, folhas coloridas caindo, casacos e eu, sentada naquele velho banco de ferro no canto da dita praça. Talvez , se de alguma modo, as lembranças pudessem fazer viver novamente o que já se foi, eu escolheria a mesma cena e, acrescentaria o amor em forma humana que ocupava meus dias  e que, carinhosamente, enrolava meus cabelos.
Se um dia pudéssemos pedir alguma coisas aos deuses, escolheria ser mais amável, mais desinibida frente ao afeto que recebia e, erroneamente, não conseguia devolver. Tolas são as estradas do coração.
Sabe que as vezes a gente não percebe o bem que somos até sermos verdadeiramente alguém, digo, até chegarmos ao ponto de sermos tão confiantes do que somos que já nos dividimos e entrelaçamos com as almas alheias. Já nos desdobramos em olhares, e nos desmanchamos em lágrimas. E risos.
Nada do que devesse nos convencer nos convence, e os devaneios já são por demais insanos, e apesar de tudo, são as mãos delicadas que me conduzem ao abraço, o sorriso manso que me desarma, a ternura que me convence.
 É como flutuar, e estar tão leve e de uma tristeza tão profunda que transcende um mero estado de espírito, quem sabe seja divino. E flutua, e luta.
 "Mas eu cuidarei de você, sempre". Soltou minha mão e se foi. Eternamente.