domingo, 30 de dezembro de 2012

Da fuga.

  Você vê a chuva escorregando na vidraça rapidamente, como se estivesse fugindo do céu. Você vê os passarinhos rápidos e esguios em busca de um lugar que os proteja dos insanos fugitivos das nuvens. E, você está ali, corpo a corpo, de cara com um calor humano que lhe é, certamente, estranho. Então você está vendo aquela face que é estranha, de um lugar inusitado, ouvindo Engenheiros do Hawaii.
   Por um instante tudo está  perfeito, a chuva, a música, e, estranhamente, você até acha que sente alguma coisa. A cena é apaixonante; as gotas caindo lentamente pelo vidro, o laranja definindo o horizonte, a noite vindo abençoada pelas sombras que contornam a forma dele  apoiado na vidraça. E você continuo ali, tentando memorizar todos os detalhes desse quadro, absorvendo os segundos restantes dessa calmaria e eternizando-a em um papel amassado que encontrou no fundo da gaveta. 
   Você também está tentando fugir dali,do céu que lhe é palpável ,que vislumbra com tanta serenidade e , por que não, afeto. Sente aquele desejo carnal que a consome por dentro lentamente, sente a pele do outro queimando na tua,  a respiração rítmica que atravessa tua derme e epiderme, que alcança e eletriza todas as tuas células.Caos e calmaria se misturam. Mas ainda assim você se mantêm ali, estática, apreciando essa intensidade que, por motivo não explicado, não consegue corresponder. 
  Melhor, você sabe quem é, o que não pode sentir, e o que não pode ser : alguém que envolve-se. Entende de uma vez por todas que está destinada somente à despertar esses sentidos, mas conviver com emoções, definitivamente, não é seu papel. Não sabe nem o por que dessa neurose, mas aceita-a, sabe que é necessário ser assim, como dizem, desalmada.
  Você quebra todo o encanto, quebra a cena, não segue o que, por certo, o protocolo manda. O desejo que antes a consumia dá lugar ao ceticismo que acompanha sempre a incógnita que lhe é reservada. Você quebra toda a chance que tem de mudar essa falta de sentimentos, toda a oportunidade que têm de uma mudança que lhe seria apropriada. Foge juntamente com as gotas que caem pela vidraça , foge do céu que se estende diante de seus olhos e ao toque da sua mão. "Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter."

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Xis-madruga.

E vai construindo sua história bordando gerúndios infinitamente em seu pano enevoado de cores sórdidas. Bordando, pintando, correndo, pulando, sorrindo. Ah! esse sim - sorrindo-  infinitamente!
Vai assim saltitando contente nessa tempestade de cores que faz seu caminho um tanto quanto mais interessante. Romanceando, dilacerando, pensando nas várias diretrizes a qual tudo vai se encaminhando.
Não são poucas as vezes em que o verbo sai do comum e vai assim, correndo na frente do presente, sonhando com aquela calmaria que não será percebida até que, por ventura, o dito gerúndio não se faça mais presente.
Todavia enquanto esse ainda estiver vivo, vamos correndo à frente de tudo, saudando o amor, acenando pra esperança e sorrindo, como se nossas ações nunca findassem e a morte fosse só um sonho.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Aprisionamento

Então reconheceu  no meio de tanta insensatez um ruído sôfrego que identificava seu mundo. Por ventura vinha este não de dentro de si, onde tudo era gélido, vazio e escuro, mas do estranho modo exterior que o circundava. Ora, seria isso possível? Era como uma doce melodia fúnebre,  em que todos os acordes encaixavam-se simetricamente, revelados em um pano de fundo em que a  morte bordava avidamente. Todavia era, contraditoriamente, um sopro de vida no meio nada. Um sopro vindo do externo, seria possível? O receio, o medo, a adversidade o impediam de compreender aquela situação, receoso talvez de encontrar sua face perdida em um rosto que não lhe era conhecido. E fica assim, sedento de curiosidade, tremendo de receio, apenas apreciando a deliciosa incógnita que lhe era apresentada mas que, nunca, seria revelada pelos seus próprios olhos.

sábado, 1 de dezembro de 2012

De dor.

Por ventura desconheceis o pecado que habita em vós,
Desventura sábias daqueles que, por acaso, andam sem rumo nem alma..
Vagando, incrédulos de si mesmo,
tentando esquecer  da tortura mortífera dos dias finais de um amor já esquecido.