Por um instante tudo está perfeito, a chuva, a música, e, estranhamente, você até acha que sente alguma coisa. A cena é apaixonante; as gotas caindo lentamente pelo vidro, o laranja definindo o horizonte, a noite vindo abençoada pelas sombras que contornam a forma dele apoiado na vidraça. E você continuo ali, tentando memorizar todos os detalhes desse quadro, absorvendo os segundos restantes dessa calmaria e eternizando-a em um papel amassado que encontrou no fundo da gaveta.
Você também está tentando fugir dali,do céu que lhe é palpável ,que vislumbra com tanta serenidade e , por que não, afeto. Sente aquele desejo carnal que a consome por dentro lentamente, sente a pele do outro queimando na tua, a respiração rítmica que atravessa tua derme e epiderme, que alcança e eletriza todas as tuas células.Caos e calmaria se misturam. Mas ainda assim você se mantêm ali, estática, apreciando essa intensidade que, por motivo não explicado, não consegue corresponder.
Melhor, você sabe quem é, o que não pode sentir, e o que não pode ser : alguém que envolve-se. Entende de uma vez por todas que está destinada somente à despertar esses sentidos, mas conviver com emoções, definitivamente, não é seu papel. Não sabe nem o por que dessa neurose, mas aceita-a, sabe que é necessário ser assim, como dizem, desalmada.
Você quebra todo o encanto, quebra a cena, não segue o que, por certo, o protocolo manda. O desejo que antes a consumia dá lugar ao ceticismo que acompanha sempre a incógnita que lhe é reservada. Você quebra toda a chance que tem de mudar essa falta de sentimentos, toda a oportunidade que têm de uma mudança que lhe seria apropriada. Foge juntamente com as gotas que caem pela vidraça , foge do céu que se estende diante de seus olhos e ao toque da sua mão. "Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter."
