Sentadinha la no canto do jardim, está sentada novamente a menina . Em meio a terra vermelha e os galhos de árvores que pendem, vai formando pequenos círculos na terra com um graveto que por ali achou. Doce pequena, está ali com toda sua serenidade habitual, seus olhos meigos voltados fixamente para o chão, como se estivesse produzindo a mais bela obra de arte.
O vestido que usa ,outrora já foi rosa claro, agora se mistura em nuances com o vermelho da terra meia molhada.O laço de fita, certa vez ,já foi preso em um belo tope no alto da cabeça, hoje se limita a somente não deixar os fios caírem sobre o rosto, e o restante da fita vermelha lhe cai pelos ombros, juntamente com os cachos negros que lhe conferem a fineza de uma boneca. Uma triste e decadente boneca.Ainda lembro dos dias em que saltitava alegremente pela casa, rodopiando seu vestido em meio as histórias que sua avó lhe contava, distribuindo alegria e abraços para os criados, e ainda mais beijos para seu pai. Descia alegremente pelas escadarias lustrosas de nossa casa assoviando aos quatro ventos as cantigas que Tia Preta, a cozinheira, havia lhe ensinado e, dito, que atraíam bons fluídos.
Lembro ainda, do dia em que plantou no quintal uma muda de rosa que o jardineiro havia lhe dado, então depois de todo o processo do plantio me chamou e disse: " Mamãe, o vovô disse que essa rosa é que nem a gente, e que as pétalas dela vão cair algum dia, mas que não é pra mim ficar triste, porque se eu cuidar direitinho dela, mesmo ela estando triste e se quebrando, vou conseguir fazer as folhinhas voltarem, porque elas se alimentam do meu amor." E completou tudo isso com um olhar de felicidade , como se houvesse descoberto o segredo de tudo e, depois, me presenteou com um de seus melhores abraços. Doce menina, já nem tão grande e tão sabida, puxou ao pai.
Esses dias eu lhe disse que livros não eram feitos para ficarem perto da terra, então. novamente ela me olhou com aqueles grandes olhos e disse que " a terra é a vovó dos livros, porque é ela quem cria a árvore que da vida ao papel das letrinhas, então os livros gostam da terra, porque eles também tem que matar a saudade da família." Eu ri gentilmente e tive que concordar.
Hoje ela está la, seu olhar faceiro e seu riso alegre já não mais ocupam essa casa, está lá no cantinho do jardim , com os olhos cheios de lágrimas,e na barra do seu vestido, agora só pairam cantigas tristes, fúnebres melodias que Tia Preta nem sequer mencionou, mas que a vida se encarregou de ensiná-la. Seu livro está em seu colo e a capa de camurça é manchada pelas lágrimas que escorrem lentamente de seus grandes olhos de desesperança, ela o alisa como se fosse uma preciosidade, mas não arrisca abri-lo.
Van Gogh certamente gostaria dessa cena e,sem dúvida alguma,as cores sóbrias predominariam a não ser por uma rosa extremamente vermelha que paira no canto da tela, rezando uma nova fase. Por enquanto, a dita flor continua despetalada e só se vê destruição e dor. Quem sabe Van Gogh venha quando a rosa já exala sua devida beleza e , junto a ela, estará uma menina de cabelos negros ostentando o mais belo sorriso que se possa imaginar. Quem sabe um novo tempo venha a começar. Talvez.

Parabens... Gostei =D
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