domingo, 31 de março de 2013

whisky








Nem em sonho imaginaria tal possibilidade. Digo, tudo foi sempre tão prático e mecânico: conhecer, conversar, gostar, namorar, perder e recomeçar. Tudo foi sempre tão assim - pode dizer superficial? - que jamais imaginaria aqueles olhos negros presos insistentemente em seus planos.
Diz planos, porque em meia hora já havia planejado os momentos do noivado e os preparativos do casamento, a longa viagem pelo Egito, Bélgica e, depois, Itália. Tudo, absolutamente tudo, regado pela maestria daqueles olhos serenos e incessantes.
Se seus companheiros de festas estivessem ali, diriam certamente que haveria outras possibilidades mais interessantes e vantajosas do ponto de vista do desejo. Mas, seus amigos não estão ali , e mesmo que estivessem, nem com a tentativa mais sagaz de persuasão seria convencido. Não com toda aquela calmaria lhe fitando encantadoramente.
Nem nome , nem passado lhe importavam agora e se ela lhe convidasse pra fugir dali naquele instante, com certeza ele estaria  pronto. Laboriosos olhos que me fascinam e alucinam de tal maneira, que nem mais sei quanta bebida resta no meu copo, nem mais sei o que ei de fazer caso, por desventura, azar ou insensatez, não tome fixamente seu corpo no meu, e lhe peça, por misericórdia, apenas mais um pequeno delírio de paixão ou satisfação carnal.
Impasse, olhos que lhe chamam, mãos que tremem, coragem e covardia o tomam, mas a atração o envolve a tal ponto que nem palavras precisam ser ditas, o que se passa no desejo já é suficiente. Fogo que se cruza.
 " Uma bebida pra moça dos olhos incessantes, por favor"- peço gentilmente ao garçom e, ainda aviso : "Seja gentil, não se sabe a fera que existe por detrás da linha tênue."
Ela aceita, e repentinamente vem a mim , como quem vem ao encontro do seu inferno:
" Vamos, eu dirijo!" 

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