sábado, 29 de junho de 2013

Recorte



Pousou o copo sobre a mesa, inclinou-se delicadamente e o encarou destemida. Encarou-o com toda sua coragem, afinal já tinha tomado umas boas doses de vinho. Olhou- o mais a fundo, tentando decifrar o que haveria de ter por trás daqueles olhos incessantes que a fascinavam depois de uma noite de sexo ou um abraço. Observou atentamente aqueles olhos inteligentes que lhe delegavam uma incógnita tão maravilhosa e excitante que era praticamente impossível mirá-los sem que um desejo interno a consumisse.
Desencanta aos contos e faz as noites intermináveis. Talvez seja o carinho, ou o modo como a toma delicadamente nos braços, que faz com  que se sinta tão especial e tão tola por ceder , contraditoriamente, aos seus encantos.
Então volta ao seu ponto de partida mais uma vez, toma seu copo novamente e saboreia o doce amargo que a deixa mais embriagada do que feliz, menos dramática, mais sonolenta, mais encantadora, menos perigosa.  Por detrás de todos os sonhos que ostentava antigamente, estava o desejo de sucumbir ao braços do outro imperfeito, desalinhar-se e descompor-se naturalmente- ou selvagemente.
Inclina-se e o toma. Roça sua mão delicadamente por entre as madeixas que moldam o rosto que prende sua atenção. Há quem diga que isso seria princípio de algo, mas nós - os reais cientes- sabemos que tudo não passa de um acordo. É necessário também suprir as necessidades do aconchego, do querer estar perto, do carinho. Nessas horas a consciência dá uns minutos de folga e deixa-os em paz, deixa-os viver um pouco mais.

terça-feira, 25 de junho de 2013








Então você sente que é completa. É até estranho constatar isso, é diferente o modo  como você se vê agora, o jeito como você encara as coisas com naturalidade e transparência.
Tudo vai se encaminhando rumo ao incerto, mas agora isso não é mais problema. Você já superou aquela ansiedade toda, não é mais necessário ter o controle das coisas, porque elas acontecem, e você as entende.
Por muito tempo você tem buscado isso, aquela paz interior, a segurança de poder andar com os ombros posicionados corretamente, sem receios de alguém achá-los pesados demais. Você tem o controle, da sua vida, das suas decisões, das relações, dos amores e dos erros.
Lembra nitidamente como era cansativo carregar o peso do outro ser que habitava dentro de si, então você decidiu: pegou aquela tesoura enferrujada que estava no fundo da tua gaveta e arrancou o dito encosto de ti. Você lembra dos detalhes não é?! Sabe que foi extremamente dolorido livrar-se daqueles pretextos incoerentes, daquele medo tinhoso que te deixava sem reação. Todavia você tinha de fazer isso, foi pro teu bem menina!


domingo, 23 de junho de 2013

Não era bem assim.

E então entrou no corredor da morte. Caminhava lentamente analisando as paredes com lajotas que, outrora, já foram brancas, a meia luz amarelada que , vez  ou outra, piscava sinistramente como nos filmes de terror. Cautelosos passos que se arrastavam lentamente, seguindo as histórias que jaziam naquele assombro. Dizem, que ali já fora palco de intermináveis noites de amantas que se deliciavam na carne um do outro, ou mesmo de assassinos horrendos, vestindo suas máscaras e dilacerando os corpos com suas serras. Zumbis não, ainda não pelo que dizem. 
Talvez, ela pensa, não tenha sido uma boa ideia descer as escadas, talvez preferisse ficar aconchegada no conforto de suas cobertas, dormindo e sonhando com belas princesas e doces fadas. Ironia demais para quem se aventura em corações alheios.
Vai adentrando e ouvindo o vento açoitando la fora, ouvindo a porta bater ao fundo e sua consciência gritando:  
-Volta, ainda dá tempo! 
E continua, porque o medo é menor que o receio de falhar, é menor que a coragem que a transborda, é menor do que a dor e a dúvida que a perseguem todo dia, toda noite toda hora. Seus encantos não são mais os mesmos, deixou eles perdidos em qualquer porta meia aberta que revelava a bondade que tanto idolatrava e nunca alcançaria.
Então chegou ao destino  e entregou ao que ali vinha fazer , e tentou achar as respostas , e resolveu que , em vão, tinha ido parar ali. Em vão, mais uma vez, outra vez e assim sucessivamente.
Volta , faz o caminho de novo, dessa vez as paredes , a luz amarelada, as portas meia abertas já não são tão desconhecidas, já não assustam mais. Acostumou-se e assim sempre foi.
- E assim sempre será, eles dizem.
Mas vocês sabem como é o coração dos corajosos, cheios de fervor e confiança, cheios de um não sei o que que os move e faz com que continuem procurando algo que os contente.
E então o que era pra ser algo de terror e assombração, virou algo banal, um texto perdido em meio ao egoísmo de um ser . Um ser, sei lá.

terça-feira, 18 de junho de 2013

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Te lembra pai quando você falava que queria algo bom pra mim? Ou quem sabe, mãe, você ainda recorde das noites que passava comigo fazendo com que eu me esforçasse nos trabalhos escolares. Com toda certeza vocês ainda lembram dos meus primeiros passos, das primeiras palavras e indagações, das dúvidas e incertezas, dos primeiros acontecimentos da fase adolescente e da angústia na hora da decisão no que que seguir profissionalmente.
 Mas sabe pai, depois de um tempo a gente começa a caminhar com as próprias pernas e chega uma hora que somos confrontados diretamente com nossas decisões e sobre qual ideais seguimos, e é exatamente nessa hora que sabemos que somos responsáveis por nós, ou nos tornamos adultos, se preferirem o uso desse termo. Fui confrontada pelo amor do meu país, confrontada com os princípios que tanto defendia nos meus discursos sobre igualdade e amor, confrontada com o meu comprometimento pelos outros.
 É engraçado sabe, a gente viveu tanto tempo estagnado, conformados com a  sorte de vivermos em um lugar em que a expressão era livre e todos nossos sonhos poderiam ser realizados se, com muito luta, fossemos firmes no propósito de prosperarmos. Quanta ingenuidade , quanto tempo perdemos fortalecendo um sistema que, indiretamente, fortalecia nossa ignorância frente ao que realmente era importante.
Hoje eu percebi que fomos educados como deveríamos ser, mas esse processo, contraditoriamente, se deu quase que imperceptivelmente , senão se extinguindo, nos espaços escolares. Porque na verdade, foi a rua que nos educou. Foram nos encontros no chão de terra batida depois da aula, nas calçadas já rachadas pelas raízes que eu aprendi o que é companheirismo. Foi ali na rua pai que eu aprendi o real significado de se defender, e que, mesmo lutando para tirar a bola do colega, lutar para ter o direito de correr e caminhar por ali, sorrir e abraçar-se sem medo do olhar impetuoso de alguém que se julgasse melhor que eu, possivelmente com mais poderes aquisitivos.
Crescemos tão conformados a sermos os sujeitos em que tudo seria " enfiado guela abaixo" , que nossa conformação seria uma caminho certo e pacífico, e que no fim daria tudo certo. No fim, trabalharíamos o dia todo, enfrentaríamos um ônibus lotado -provavelmente em péssimas condições- e, enfim, chegaríamos em casa : um barraco fabricado por nossas próprias mãos, com restos de papéis e latas que achamos pela vizinhança. Talvez não seja sempre assim, mas estaríamos conformados.
O que eu vi hoje são pessoas inconformadas com suas situações, vi jovens ,adultos e idosos falando de seus direitos e - fique atônito- defendendo seus ideais! Você não sabe pai como foi emocionante ver essas pessoas gritando contra seus opressores, falando que o conformismos não as tomou , que na verdade o estopim teria de ser no momento certo. E assim foi.
Vi as pessoas empunhando sua maior arma: a revolta, a indignação com o que lhes é imposto e, nisso tudo, eu vi um futuro. Vi a dita nação coca-cola pronta com seus cartazes e bandeiras, preparando suas gargantas e proclamar ao mundo todo : " O Gigante acordou", "Muda Brasil."
Vieram para as ruas e invadiram sua casa, estão tomando as rédeas da sua nação, estão mostrando  que "povo que não tem virtude, acaba por ser escravo".
Todos estão atentos , e fique atento o senhor também , meu querido pai, os caras pintadas estão novamente tomando as ruas, a geração paz e amor está se reconfigurando e está cobrando com todo o poder que têm a ordem e o progresso que lhe foram prometidos. "...se ergues da justiça e clava forte, verás que um filho teu não foge à luta".


sábado, 1 de junho de 2013

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 Ele fazia bem a ela. E diante disso, nada melhor do que acatar o carinho e a atenção que lhe era dispensada e se acalentar nos braços do conforto. Afinal, pra que amar!