terça-feira, 18 de junho de 2013

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Te lembra pai quando você falava que queria algo bom pra mim? Ou quem sabe, mãe, você ainda recorde das noites que passava comigo fazendo com que eu me esforçasse nos trabalhos escolares. Com toda certeza vocês ainda lembram dos meus primeiros passos, das primeiras palavras e indagações, das dúvidas e incertezas, dos primeiros acontecimentos da fase adolescente e da angústia na hora da decisão no que que seguir profissionalmente.
 Mas sabe pai, depois de um tempo a gente começa a caminhar com as próprias pernas e chega uma hora que somos confrontados diretamente com nossas decisões e sobre qual ideais seguimos, e é exatamente nessa hora que sabemos que somos responsáveis por nós, ou nos tornamos adultos, se preferirem o uso desse termo. Fui confrontada pelo amor do meu país, confrontada com os princípios que tanto defendia nos meus discursos sobre igualdade e amor, confrontada com o meu comprometimento pelos outros.
 É engraçado sabe, a gente viveu tanto tempo estagnado, conformados com a  sorte de vivermos em um lugar em que a expressão era livre e todos nossos sonhos poderiam ser realizados se, com muito luta, fossemos firmes no propósito de prosperarmos. Quanta ingenuidade , quanto tempo perdemos fortalecendo um sistema que, indiretamente, fortalecia nossa ignorância frente ao que realmente era importante.
Hoje eu percebi que fomos educados como deveríamos ser, mas esse processo, contraditoriamente, se deu quase que imperceptivelmente , senão se extinguindo, nos espaços escolares. Porque na verdade, foi a rua que nos educou. Foram nos encontros no chão de terra batida depois da aula, nas calçadas já rachadas pelas raízes que eu aprendi o que é companheirismo. Foi ali na rua pai que eu aprendi o real significado de se defender, e que, mesmo lutando para tirar a bola do colega, lutar para ter o direito de correr e caminhar por ali, sorrir e abraçar-se sem medo do olhar impetuoso de alguém que se julgasse melhor que eu, possivelmente com mais poderes aquisitivos.
Crescemos tão conformados a sermos os sujeitos em que tudo seria " enfiado guela abaixo" , que nossa conformação seria uma caminho certo e pacífico, e que no fim daria tudo certo. No fim, trabalharíamos o dia todo, enfrentaríamos um ônibus lotado -provavelmente em péssimas condições- e, enfim, chegaríamos em casa : um barraco fabricado por nossas próprias mãos, com restos de papéis e latas que achamos pela vizinhança. Talvez não seja sempre assim, mas estaríamos conformados.
O que eu vi hoje são pessoas inconformadas com suas situações, vi jovens ,adultos e idosos falando de seus direitos e - fique atônito- defendendo seus ideais! Você não sabe pai como foi emocionante ver essas pessoas gritando contra seus opressores, falando que o conformismos não as tomou , que na verdade o estopim teria de ser no momento certo. E assim foi.
Vi as pessoas empunhando sua maior arma: a revolta, a indignação com o que lhes é imposto e, nisso tudo, eu vi um futuro. Vi a dita nação coca-cola pronta com seus cartazes e bandeiras, preparando suas gargantas e proclamar ao mundo todo : " O Gigante acordou", "Muda Brasil."
Vieram para as ruas e invadiram sua casa, estão tomando as rédeas da sua nação, estão mostrando  que "povo que não tem virtude, acaba por ser escravo".
Todos estão atentos , e fique atento o senhor também , meu querido pai, os caras pintadas estão novamente tomando as ruas, a geração paz e amor está se reconfigurando e está cobrando com todo o poder que têm a ordem e o progresso que lhe foram prometidos. "...se ergues da justiça e clava forte, verás que um filho teu não foge à luta".


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