Pousou o copo sobre a mesa, inclinou-se delicadamente e o encarou destemida. Encarou-o com toda sua coragem, afinal já tinha tomado umas boas doses de vinho. Olhou- o mais a fundo, tentando decifrar o que haveria de ter por trás daqueles olhos incessantes que a fascinavam depois de uma noite de sexo ou um abraço. Observou atentamente aqueles olhos inteligentes que lhe delegavam uma incógnita tão maravilhosa e excitante que era praticamente impossível mirá-los sem que um desejo interno a consumisse.
Desencanta aos contos e faz as noites intermináveis. Talvez seja o carinho, ou o modo como a toma delicadamente nos braços, que faz com que se sinta tão especial e tão tola por ceder , contraditoriamente, aos seus encantos.
Então volta ao seu ponto de partida mais uma vez, toma seu copo novamente e saboreia o doce amargo que a deixa mais embriagada do que feliz, menos dramática, mais sonolenta, mais encantadora, menos perigosa. Por detrás de todos os sonhos que ostentava antigamente, estava o desejo de sucumbir ao braços do outro imperfeito, desalinhar-se e descompor-se naturalmente- ou selvagemente.
Inclina-se e o toma. Roça sua mão delicadamente por entre as madeixas que moldam o rosto que prende sua atenção. Há quem diga que isso seria princípio de algo, mas nós - os reais cientes- sabemos que tudo não passa de um acordo. É necessário também suprir as necessidades do aconchego, do querer estar perto, do carinho. Nessas horas a consciência dá uns minutos de folga e deixa-os em paz, deixa-os viver um pouco mais.

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