Agora me fita como se eu fosse o culpado pelo destino nada benevolente ao qual foi submetida, como se a culpa de todos os fantasmas que a atormentam e todas as dores que se dilaceram em seu corpo fosse minha.
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Gritava e berrava como se o mundo tivesse pregado amargura em seu coração, nada mais queria ouvir, nem saber se o discurso era animador, e sua fúria superava as esperanças daqueles que a cercavam. Diziam as más línguas que demônios a atormentavam não só durante o sono, mas enquanto exercia os ofícios do dia-a-dia, enquanto andava pela calçada e resolvia escabelar-se como se tudo estivesse acabando, como se pequenos ratos estivessem consumindo sua carne.
Sangue, muito sangue a cercava e por onde andava derramava sua ira. Todavia fitava nos com tanta ternura que, se muito ingênuo fosse, não se daria conta do terror que distribuía por onde seus passos eram marcados. Suas palavras eram delicadas e a ironia era leve e desconfortante, própria das pessoas que carregam os pensamentos conflitantes amarrado ao medo da descoberta.
Doce criatura, na infância teimava em correr atrás dos pássaros para tortura-los e sua coleção de morcegos aumentava gradativamente, como se por um milagre ou maldição. Talvez sua amizade com os ditos seres fosse tão grande que os próprios se sacrificavam em honra ao brilho teimoso que se observava quando os fitava. Melhor, quando fitava o líquido viscoso e vermelho que escorria por entre as suas presas.
Vivia amuada e escondida por entre as tábuas já velhas do galpão próximo a sua casa. Lá, fazia o seu mundo, arrumava as intenções por sequências lógica as quais era detalhadamente planejadas e, executadas com a exatidão de como chega a morte.
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Percorreu todos os becos e, por onde passava, deixava os rastros e os restos de velas queimadas ornamentadas por besouros que cravava na cera quente, por dentes das pestes que encontrava, pela tristeza que oprimia seu peito e os sonhos esmagados pelas entidades que a tomavam.
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Não se sabe ao certo como chegou aqui, a única certeza é que de nada adiantou as rezas, as preces ou mesmo os exorcismos, só o que nutre é o ódio e o temor de que , sem hora prévia, o que lhe consome lentamente a possua avidamente. Porém, quando em meus braços esteve não clamava por mais nada além de aconchego e calor, como se todo o terror pudesse ser reversível.
Agora, com o pedido escondido nos seus olhos tristes, clama por minha ajuda e implora que eu a ame. Olho novamente para o que resta do nosso filho entre as vísceras e o sangue que se espalham pelo assoalho da sala, fito sua saia suja e o sopro quente que sai do seu hálito, escuto suas juras e promessas, mas só o que resta são destroços de uma tentativa vã de livrar-se dos demônios. Talvez eu seja o próximo a sucumbir .
*Foto: Katerina Plotnikova



