quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Atormento.



Agora me fita como se eu fosse o culpado pelo destino nada benevolente ao qual foi submetida, como se a culpa de todos os fantasmas que a atormentam e todas as dores que se dilaceram em seu corpo fosse  minha.

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Gritava e berrava como se o mundo tivesse pregado amargura em seu coração, nada mais queria ouvir, nem saber se o discurso era animador, e sua fúria superava as esperanças daqueles que a cercavam. Diziam as más línguas que demônios a atormentavam não só durante o sono, mas enquanto exercia os ofícios do dia-a-dia, enquanto andava pela calçada e resolvia escabelar-se como se tudo estivesse acabando, como se pequenos ratos estivessem consumindo sua carne.

Sangue, muito sangue a cercava e por onde andava derramava sua ira. Todavia fitava nos com tanta ternura que, se muito ingênuo fosse, não se daria conta do terror que distribuía por onde seus passos eram marcados. Suas palavras eram delicadas e a ironia era leve e desconfortante, própria das pessoas que carregam os pensamentos conflitantes amarrado ao medo da descoberta.
Doce criatura, na infância teimava em correr atrás dos pássaros para tortura-los e sua coleção de morcegos aumentava gradativamente, como se por um milagre ou maldição. Talvez sua amizade com os ditos seres fosse tão grande que os próprios se sacrificavam em honra ao brilho teimoso que se observava quando os fitava. Melhor, quando fitava o líquido viscoso e vermelho que escorria por entre as suas presas.
Vivia amuada e escondida por entre as tábuas já velhas do galpão próximo a sua casa. Lá, fazia o seu mundo, arrumava as intenções por sequências lógica as quais era detalhadamente planejadas e, executadas com a exatidão de como chega a morte.

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Percorreu todos os becos e, por onde passava, deixava os rastros e os restos de velas queimadas ornamentadas por besouros que cravava na cera quente, por dentes das pestes que encontrava, pela tristeza que oprimia seu peito e os sonhos esmagados pelas entidades que a tomavam.

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Não se sabe ao certo como chegou aqui, a única certeza é que de nada adiantou as rezas, as preces ou mesmo os exorcismos, só o que nutre é o ódio e o temor de que , sem hora prévia, o que lhe consome  lentamente a possua avidamente. Porém, quando em meus braços esteve não clamava por mais nada além de aconchego e calor, como se todo o terror pudesse ser reversível.
Agora, com o pedido escondido nos seus olhos tristes, clama por minha ajuda e implora que eu a ame. Olho novamente para o que resta do nosso filho entre as vísceras e o sangue que se espalham pelo assoalho da sala, fito sua saia suja e o sopro quente que sai do seu hálito, escuto suas juras e promessas, mas só o que resta são destroços de uma tentativa vã de livrar-se dos demônios. Talvez eu seja o próximo a sucumbir .





*Foto: Katerina Plotnikova








segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Enquanto o vazio não consola.





São nesses dias preguiçosos que talvez construa a sua história. Lá fora a chuva chega mansamente, fazendo do verde das árvores a poesia necessária para desconectar o corpo da sobrevivência fugaz que a persegue. Nesses dias mais sóbrios, onde os pássaros escondem-se por entre as folhagens e ficam a observar o movimento ritmado dos pingos que embalam seu sono, são nesses dias que a vida se torna grandiosa.
Estranho seria se, no meio de todo esse movimento insano que seguem os dias, não se pudesse correr.

Lá dentro da pequena casa onde as madeiras já desgastadas pelo tempo revelam as infâmias da vida a dois, a menina repousa o livro sobre a escrivaninha. Do seu lado, aquele que lhe delega todo o carinho necessário para que o fardo pudesse ser suportado, dorme tranquilamente envolto no lençol já amarelado com um sorriso que vela seus sonhos.
Talvez a doce menina tenha sonhado com algo que pudesse fazer de si mais que um simples devaneio entregue as páginas que saboreia todo dia, mas o destino quis que fosse desse jeito, quis fazer dela a controvérsia pouco provável de algo mais poético. O sonho que lhe abastecia não era ornamentado com grandes bens adquiridos por aquilo que chamam de ignorância, o que lhe apetecia era o vento soprando sobre os cabelos ruivos , balançando o longo vestido ornamentado pelas pequenas flores que encontrava pelo caminho. Talvez fosse ela uma extensão da própria criação divina, talvez fizesse parte dos verdes campos que as letras descreviam nos seus pequenos livros.
 A sombra da tragédias sempre a perseguiram insanamente, rodeada de fantasmas que a atormentavam e lastimavam o que o oráculo havia lhe designado desde os começo de seus amargos dias. Mas a mão que segurava a sua  na cama revolta, era firme e sensata, tinha o calor que lhe tiraram.

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Já nem sabe mais pra onde deveria seguir com sua sina, já nem sabe o que a transcende e faz com que paire, com discreta leveza, pelos restos terrosos onde vagueia constantemente. Os seres que tramitam por entre seu mundo a tomam gentilmente vez ou outra, e lhe transportam pra algum lugar onde tudo brilha, e os dias passam como pássaros em revoada, as flores nascem por todos os cantos e os seres que por ali habitam são gentis. Insanidade.

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Docemente cobre o  o corpo que repousa em seu lado com o seu próprio calor, e fita os olhos que acabam de se abrir com a gratidão necessário para entregar-se. Talvez, se de algum modo pudesse definir a poesia dos corpos em movimento no ato de carinho e juras em que se envolvem, talvez tudo pudesse passar e o calor do momento perpetuasse e diminuísse a ira dos deuses que a punem. Gentilmente é guiada por entre o enlaço que a prende, por entre as cortinas de seda que esvoaçam e disseminam o perfume das pequenas flores amarelas já quase extintas. Os móveis continuam frios e marrons, lascados devido a ação do tempo, rangendo as súplicas por melhores tratos, e o vento que quando por eles passam, leva consigo o aroma dos velhos.
 Ainda há uma chance de toda a dor se transformar em esperança e quem sabe o paraíso que lhe foi apresentada enquanto ainda insana , exista.
A única coisa que lhe consola são as páginas amareladas que pousam no pequeno balcão ao seu lado e o calor suave que provém do ser que a consola enquanto sua abstração nomeia-se de felicidade. Enquanto todos os pássaros silenciam, todas as folhas caem, todo o amor se vai, todo o rancor se esvaece...enquanto o vazio preenche e o medo não vem.





*Foto: Katerina Plotnikova






domingo, 8 de setembro de 2013

Um pouco de amor





   
Como quando a ironia se faz presente no teu sorriso, acompanhado dos olhos inquisidores, tão mais carregados de sarcasmo quanto o teu pensamento que se desdobra em planos secretos que fazem de mim  seu alvo principal. Quando me fita tão docemente que todos os portos seguros se resumem ao envolver dos teus braços junto ao meu corpo, e o seu calor aquece todas as esperanças de que, talvez, algo possa florescer.
 Tão irritante quanto a insistente mania de achar as imperfeições e fazer dela o escárnio que necessita para arrancar um olhar de desaprovação e, logo em seguida, o desarme. Escondido de tudo que seria plausível e coerente, talvez o segredo da atração seja justamente esse. A coerência só cabe aos ignorantes.
Tão descabido como quando me toma em um carinho quase abstrato e me deixo levar pelas sutilezas do teu ser. Docemente, suavemente, tudo se torna tão empírico que acaba sendo irreal. Talvez esqueça por alguns instantes as melodias insensatas que perambulam lá fora, e só o que ouça seja o riso descomprometido de alguém que silencia o peito em busca de um abrigo.
 Naturalmente há aqueles dias em que não se quer mais do que observar como funciona a lógicas das peripécias que distribui diariamente. As vantagens de se ter alguém louco o suficiente para se amar por perto, é que a insanidade, o riso, os desastres , os abraços e as visitas acontecem naturalmente, como se o acaso fosse o ditador do enredo.
Talvez  fosse estranho se não fosse tão eu. Talvez  fosse estranho se não fosse carinho, afeto, ou mesmo um bom lugar para se estar quando todo o resto parece não resistir. 

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Manhã.




               


 E sempre sentiu a necessidade de transpor-se. Não que o cuidado à assolasse, mas a imensidão dos todos à chamava e se refazia em seu íntimo.
  Outras vezes, em relva verde e solitária consumia-se em danças compassadas pelo murmúrio do vento que percorria todos os cantos e toda pele. Ah, a pele! Essa sim a fascinava: o toque suave ou hostil, o calor que denotava os corpos em sensações distraídas e perpétuas. O doce emaranhado de fios e entrelinhas que a guiavam por meio dos anseios alheios.
  Certa vez encontrou olhos tão doces que pousaram em seu pensamento e, certamente, adentraram com tamanha intensidade que sua pupila dilatou-se. Não se sabe ao certo o que encontrou naqueles incessantes olhos que a perseguiam mas - uma coisa é certa- deixou-a amparada na loucura.
  E foi-se sempre desse mesmo jeito, insaciável ser que se consumia de abstrações e, quando o sol de mansinho chegava, nada mais fazia do que desmanchar-se em sorrisos. Deitada em canto qualquer, tendo os grafos mal rabiscados em todo canto que a preenchesse, fazia de si devaneio improvável. 
   O que resta ainda - e sempre restará- é a doçura que embala seus dias, assim como a suavidade que move seus longos cabelos. Assim como os aconchegos que distribui.
   Há quem diga que a salvação do mundo está nas mãos de gente como esta: pobre alma solitária carregada de amor e leveza. Enquanto isso, soprando seus anseios, descansa serenamente junto as asas. Descansa e sorri profundamente, como quem flutua sobre si.

domingo, 1 de setembro de 2013

Insanidade







"Eis aqui a depravação do medo vangloriando o imperfeito que o dissemina e incendeia. Eis aqui todo o receio que talvez, ou jamais, pensasse em existir. Eis aqui também, um curioso ser denominado imprevisto alheio que se joga por cima dos cadáveres que arruínam toda essa extensão."
 
Pouco se sabe daqueles males que atormentam a alma, aqueles deslizes que deixam o poço mais fundo e a dor mais insistente. Ainda dizem que  tempo poderia curar, que as mágoas passam e os dias se arrastam. E que o mundo pode parar de girar. Blasfêmia! Nada sabem aqueles seres que vivem da hipocrisia, aquelas intituladas felizes almas que se desvanecem em um torpor sôfrego e limitado. Nada sabem aqueles  que vagueiam por entre o pólen da arbitragem confusa. As flores nem sempre compõem a beleza necessário que esperamos. Nem sempre a beleza nos convém, nem sempre o necessário nos convence.
Numa prece já longínqua pedi aos deuses mais ironia no destino, mais controvérsias e desencontros e eles - esperando por isso- atenderam prontamente aos meus pedidos. Encobriram tão bem o descaso que me fizeram a rotina dos dias uma implacável companheira, astuta e imperceptível. Talvez os deuses não sejam o bem que esperamos, talvez nem os deuses entendam os anseios diabólicas que a alma põem- se a elaborar quando entra em conflito com a identidade. Insano!

E enquanto redige os mal escritos e inconscientes grafos bebe seu café já morno devido a lógica do tempo, e pensa se o mal que lhe aflige não é mais que a denominação de loucura.