São nesses dias preguiçosos que talvez construa a sua história. Lá fora a chuva chega mansamente, fazendo do verde das árvores a poesia necessária para desconectar o corpo da sobrevivência fugaz que a persegue. Nesses dias mais sóbrios, onde os pássaros escondem-se por entre as folhagens e ficam a observar o movimento ritmado dos pingos que embalam seu sono, são nesses dias que a vida se torna grandiosa.
Estranho seria se, no meio de todo esse movimento insano que seguem os dias, não se pudesse correr.
Lá dentro da pequena casa onde as madeiras já desgastadas pelo tempo revelam as infâmias da vida a dois, a menina repousa o livro sobre a escrivaninha. Do seu lado, aquele que lhe delega todo o carinho necessário para que o fardo pudesse ser suportado, dorme tranquilamente envolto no lençol já amarelado com um sorriso que vela seus sonhos.
Talvez a doce menina tenha sonhado com algo que pudesse fazer de si mais que um simples devaneio entregue as páginas que saboreia todo dia, mas o destino quis que fosse desse jeito, quis fazer dela a controvérsia pouco provável de algo mais poético. O sonho que lhe abastecia não era ornamentado com grandes bens adquiridos por aquilo que chamam de ignorância, o que lhe apetecia era o vento soprando sobre os cabelos ruivos , balançando o longo vestido ornamentado pelas pequenas flores que encontrava pelo caminho. Talvez fosse ela uma extensão da própria criação divina, talvez fizesse parte dos verdes campos que as letras descreviam nos seus pequenos livros.
A sombra da tragédias sempre a perseguiram insanamente, rodeada de fantasmas que a atormentavam e lastimavam o que o oráculo havia lhe designado desde os começo de seus amargos dias. Mas a mão que segurava a sua na cama revolta, era firme e sensata, tinha o calor que lhe tiraram.
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Já nem sabe mais pra onde deveria seguir com sua sina, já nem sabe o que a transcende e faz com que paire, com discreta leveza, pelos restos terrosos onde vagueia constantemente. Os seres que tramitam por entre seu mundo a tomam gentilmente vez ou outra, e lhe transportam pra algum lugar onde tudo brilha, e os dias passam como pássaros em revoada, as flores nascem por todos os cantos e os seres que por ali habitam são gentis. Insanidade.
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Docemente cobre o o corpo que repousa em seu lado com o seu próprio calor, e fita os olhos que acabam de se abrir com a gratidão necessário para entregar-se. Talvez, se de algum modo pudesse definir a poesia dos corpos em movimento no ato de carinho e juras em que se envolvem, talvez tudo pudesse passar e o calor do momento perpetuasse e diminuísse a ira dos deuses que a punem. Gentilmente é guiada por entre o enlaço que a prende, por entre as cortinas de seda que esvoaçam e disseminam o perfume das pequenas flores amarelas já quase extintas. Os móveis continuam frios e marrons, lascados devido a ação do tempo, rangendo as súplicas por melhores tratos, e o vento que quando por eles passam, leva consigo o aroma dos velhos.
Ainda há uma chance de toda a dor se transformar em esperança e quem sabe o paraíso que lhe foi apresentada enquanto ainda insana , exista.
A única coisa que lhe consola são as páginas amareladas que pousam no pequeno balcão ao seu lado e o calor suave que provém do ser que a consola enquanto sua abstração nomeia-se de felicidade. Enquanto todos os pássaros silenciam, todas as folhas caem, todo o amor se vai, todo o rancor se esvaece...enquanto o vazio preenche e o medo não vem.
*Foto: Katerina Plotnikova

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