quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

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"Mas eu cuidarei de você, sempre."
Essa foi a última jura que  proferiu, nunca soube se foi verdadeira.
Muito antes de todo o vinho que já consumimos, ainda nos olhávamos com tamanha ternura, que os mais céticos se enterneceriam diante da cena, do simples roçar de mãos.
 Foi um dia até poético: outono, brisa fresca, folhas coloridas caindo, casacos e eu, sentada naquele velho banco de ferro no canto da dita praça. Talvez , se de alguma modo, as lembranças pudessem fazer viver novamente o que já se foi, eu escolheria a mesma cena e, acrescentaria o amor em forma humana que ocupava meus dias  e que, carinhosamente, enrolava meus cabelos.
Se um dia pudéssemos pedir alguma coisas aos deuses, escolheria ser mais amável, mais desinibida frente ao afeto que recebia e, erroneamente, não conseguia devolver. Tolas são as estradas do coração.
Sabe que as vezes a gente não percebe o bem que somos até sermos verdadeiramente alguém, digo, até chegarmos ao ponto de sermos tão confiantes do que somos que já nos dividimos e entrelaçamos com as almas alheias. Já nos desdobramos em olhares, e nos desmanchamos em lágrimas. E risos.
Nada do que devesse nos convencer nos convence, e os devaneios já são por demais insanos, e apesar de tudo, são as mãos delicadas que me conduzem ao abraço, o sorriso manso que me desarma, a ternura que me convence.
 É como flutuar, e estar tão leve e de uma tristeza tão profunda que transcende um mero estado de espírito, quem sabe seja divino. E flutua, e luta.
 "Mas eu cuidarei de você, sempre". Soltou minha mão e se foi. Eternamente.






sábado, 23 de novembro de 2013

:: nota ::

As vezes te pega assim mesmo, no flagra, no exato momento em que você  só sabe que está sorrindo feito boba, quando te fitam com  uma cara indiscutivelmente inquisidora. Talvez você até pense que pode desvencilhar-se e largar-se novamente aos ventos quando bem entender, sair vagando pelas praças desfrutando do companheirismo da tua solidão e dos pensamentos mau intencionados. Mas, nesse momento, o que você realmente quer é estar de braços dados  com a pessoa que talvez tenha desaprisionado os carinhos e transformado-os em afetos, em sorrisos bobos.

Talvez eu nem queira mais voltar a ser cética demais, centrada demais, talvez eu queira mesmo estar contigo, mesmo que as juras sejam caladas, mesmo que as palavras sejam difíceis de serem ditas, mesmo que os carinhos sejam ainda meio limitados, mesmo que a vergonha ainda esteja presente. O receio ainda é grande sobre o até quando entregar-se, até onde poder ir, mas já não há escapatória, e talvez eu só esteja enfeitando as linhas pra disfarçar todo o sentimento que não consegue expressar-se corretamente. 

Ainda é cedo demais pra dizer certas coisas, mas antes que o tempo se vá e não se consiga dizer tudo, talvez seria necessário dizer uma única coisa: há certas coisas que só certas pessoas conseguem desaprisionar, só certos olhares conseguem confortar, só certos abraços conseguem despertar, só o carinho consegue manter. E que se mantenha o que for verdadeiro, que desperte e dure tudo o que for feito de afeto.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013





Se não fosse desespero, talvez seria loucura, talvez seria ânsia persistente em perambular e virar-se para um mundo  em que pesadelos sejam o conforto necessário. Revira-se dentre os mais íngremes e desesperados caminhos, sintetiza esperanças, transpira os medo e escorre-se em lágrimas, lava-se em dor.

A tortura é percorrer os íngremes caminhos e deparar-se com os demônios alheios, a desesperança, o desapontamento e o anseio - já sucumbido pela podridão- pelo encontro de alguma luz. Ofusca a luz. Detém-se em qualquer canto mais arborizado e faz seu ninho um lar. Mesmos que os vermes à destruam lentamente, mesmo que o desencanto à tome vez ou outra, ainda vê qualquer resquício de claridade que clama por sua presença.

Ainda há alguma ilusão nisso tudo, dádiva ou castigo, temores , ameaças e amor. Talvez o último consiga lhe salvar. 


Foto: Katerina Plotnikova







quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Atormento.



Agora me fita como se eu fosse o culpado pelo destino nada benevolente ao qual foi submetida, como se a culpa de todos os fantasmas que a atormentam e todas as dores que se dilaceram em seu corpo fosse  minha.

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Gritava e berrava como se o mundo tivesse pregado amargura em seu coração, nada mais queria ouvir, nem saber se o discurso era animador, e sua fúria superava as esperanças daqueles que a cercavam. Diziam as más línguas que demônios a atormentavam não só durante o sono, mas enquanto exercia os ofícios do dia-a-dia, enquanto andava pela calçada e resolvia escabelar-se como se tudo estivesse acabando, como se pequenos ratos estivessem consumindo sua carne.

Sangue, muito sangue a cercava e por onde andava derramava sua ira. Todavia fitava nos com tanta ternura que, se muito ingênuo fosse, não se daria conta do terror que distribuía por onde seus passos eram marcados. Suas palavras eram delicadas e a ironia era leve e desconfortante, própria das pessoas que carregam os pensamentos conflitantes amarrado ao medo da descoberta.
Doce criatura, na infância teimava em correr atrás dos pássaros para tortura-los e sua coleção de morcegos aumentava gradativamente, como se por um milagre ou maldição. Talvez sua amizade com os ditos seres fosse tão grande que os próprios se sacrificavam em honra ao brilho teimoso que se observava quando os fitava. Melhor, quando fitava o líquido viscoso e vermelho que escorria por entre as suas presas.
Vivia amuada e escondida por entre as tábuas já velhas do galpão próximo a sua casa. Lá, fazia o seu mundo, arrumava as intenções por sequências lógica as quais era detalhadamente planejadas e, executadas com a exatidão de como chega a morte.

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Percorreu todos os becos e, por onde passava, deixava os rastros e os restos de velas queimadas ornamentadas por besouros que cravava na cera quente, por dentes das pestes que encontrava, pela tristeza que oprimia seu peito e os sonhos esmagados pelas entidades que a tomavam.

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Não se sabe ao certo como chegou aqui, a única certeza é que de nada adiantou as rezas, as preces ou mesmo os exorcismos, só o que nutre é o ódio e o temor de que , sem hora prévia, o que lhe consome  lentamente a possua avidamente. Porém, quando em meus braços esteve não clamava por mais nada além de aconchego e calor, como se todo o terror pudesse ser reversível.
Agora, com o pedido escondido nos seus olhos tristes, clama por minha ajuda e implora que eu a ame. Olho novamente para o que resta do nosso filho entre as vísceras e o sangue que se espalham pelo assoalho da sala, fito sua saia suja e o sopro quente que sai do seu hálito, escuto suas juras e promessas, mas só o que resta são destroços de uma tentativa vã de livrar-se dos demônios. Talvez eu seja o próximo a sucumbir .





*Foto: Katerina Plotnikova








segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Enquanto o vazio não consola.





São nesses dias preguiçosos que talvez construa a sua história. Lá fora a chuva chega mansamente, fazendo do verde das árvores a poesia necessária para desconectar o corpo da sobrevivência fugaz que a persegue. Nesses dias mais sóbrios, onde os pássaros escondem-se por entre as folhagens e ficam a observar o movimento ritmado dos pingos que embalam seu sono, são nesses dias que a vida se torna grandiosa.
Estranho seria se, no meio de todo esse movimento insano que seguem os dias, não se pudesse correr.

Lá dentro da pequena casa onde as madeiras já desgastadas pelo tempo revelam as infâmias da vida a dois, a menina repousa o livro sobre a escrivaninha. Do seu lado, aquele que lhe delega todo o carinho necessário para que o fardo pudesse ser suportado, dorme tranquilamente envolto no lençol já amarelado com um sorriso que vela seus sonhos.
Talvez a doce menina tenha sonhado com algo que pudesse fazer de si mais que um simples devaneio entregue as páginas que saboreia todo dia, mas o destino quis que fosse desse jeito, quis fazer dela a controvérsia pouco provável de algo mais poético. O sonho que lhe abastecia não era ornamentado com grandes bens adquiridos por aquilo que chamam de ignorância, o que lhe apetecia era o vento soprando sobre os cabelos ruivos , balançando o longo vestido ornamentado pelas pequenas flores que encontrava pelo caminho. Talvez fosse ela uma extensão da própria criação divina, talvez fizesse parte dos verdes campos que as letras descreviam nos seus pequenos livros.
 A sombra da tragédias sempre a perseguiram insanamente, rodeada de fantasmas que a atormentavam e lastimavam o que o oráculo havia lhe designado desde os começo de seus amargos dias. Mas a mão que segurava a sua  na cama revolta, era firme e sensata, tinha o calor que lhe tiraram.

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Já nem sabe mais pra onde deveria seguir com sua sina, já nem sabe o que a transcende e faz com que paire, com discreta leveza, pelos restos terrosos onde vagueia constantemente. Os seres que tramitam por entre seu mundo a tomam gentilmente vez ou outra, e lhe transportam pra algum lugar onde tudo brilha, e os dias passam como pássaros em revoada, as flores nascem por todos os cantos e os seres que por ali habitam são gentis. Insanidade.

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Docemente cobre o  o corpo que repousa em seu lado com o seu próprio calor, e fita os olhos que acabam de se abrir com a gratidão necessário para entregar-se. Talvez, se de algum modo pudesse definir a poesia dos corpos em movimento no ato de carinho e juras em que se envolvem, talvez tudo pudesse passar e o calor do momento perpetuasse e diminuísse a ira dos deuses que a punem. Gentilmente é guiada por entre o enlaço que a prende, por entre as cortinas de seda que esvoaçam e disseminam o perfume das pequenas flores amarelas já quase extintas. Os móveis continuam frios e marrons, lascados devido a ação do tempo, rangendo as súplicas por melhores tratos, e o vento que quando por eles passam, leva consigo o aroma dos velhos.
 Ainda há uma chance de toda a dor se transformar em esperança e quem sabe o paraíso que lhe foi apresentada enquanto ainda insana , exista.
A única coisa que lhe consola são as páginas amareladas que pousam no pequeno balcão ao seu lado e o calor suave que provém do ser que a consola enquanto sua abstração nomeia-se de felicidade. Enquanto todos os pássaros silenciam, todas as folhas caem, todo o amor se vai, todo o rancor se esvaece...enquanto o vazio preenche e o medo não vem.





*Foto: Katerina Plotnikova






domingo, 8 de setembro de 2013

Um pouco de amor





   
Como quando a ironia se faz presente no teu sorriso, acompanhado dos olhos inquisidores, tão mais carregados de sarcasmo quanto o teu pensamento que se desdobra em planos secretos que fazem de mim  seu alvo principal. Quando me fita tão docemente que todos os portos seguros se resumem ao envolver dos teus braços junto ao meu corpo, e o seu calor aquece todas as esperanças de que, talvez, algo possa florescer.
 Tão irritante quanto a insistente mania de achar as imperfeições e fazer dela o escárnio que necessita para arrancar um olhar de desaprovação e, logo em seguida, o desarme. Escondido de tudo que seria plausível e coerente, talvez o segredo da atração seja justamente esse. A coerência só cabe aos ignorantes.
Tão descabido como quando me toma em um carinho quase abstrato e me deixo levar pelas sutilezas do teu ser. Docemente, suavemente, tudo se torna tão empírico que acaba sendo irreal. Talvez esqueça por alguns instantes as melodias insensatas que perambulam lá fora, e só o que ouça seja o riso descomprometido de alguém que silencia o peito em busca de um abrigo.
 Naturalmente há aqueles dias em que não se quer mais do que observar como funciona a lógicas das peripécias que distribui diariamente. As vantagens de se ter alguém louco o suficiente para se amar por perto, é que a insanidade, o riso, os desastres , os abraços e as visitas acontecem naturalmente, como se o acaso fosse o ditador do enredo.
Talvez  fosse estranho se não fosse tão eu. Talvez  fosse estranho se não fosse carinho, afeto, ou mesmo um bom lugar para se estar quando todo o resto parece não resistir. 

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Manhã.




               


 E sempre sentiu a necessidade de transpor-se. Não que o cuidado à assolasse, mas a imensidão dos todos à chamava e se refazia em seu íntimo.
  Outras vezes, em relva verde e solitária consumia-se em danças compassadas pelo murmúrio do vento que percorria todos os cantos e toda pele. Ah, a pele! Essa sim a fascinava: o toque suave ou hostil, o calor que denotava os corpos em sensações distraídas e perpétuas. O doce emaranhado de fios e entrelinhas que a guiavam por meio dos anseios alheios.
  Certa vez encontrou olhos tão doces que pousaram em seu pensamento e, certamente, adentraram com tamanha intensidade que sua pupila dilatou-se. Não se sabe ao certo o que encontrou naqueles incessantes olhos que a perseguiam mas - uma coisa é certa- deixou-a amparada na loucura.
  E foi-se sempre desse mesmo jeito, insaciável ser que se consumia de abstrações e, quando o sol de mansinho chegava, nada mais fazia do que desmanchar-se em sorrisos. Deitada em canto qualquer, tendo os grafos mal rabiscados em todo canto que a preenchesse, fazia de si devaneio improvável. 
   O que resta ainda - e sempre restará- é a doçura que embala seus dias, assim como a suavidade que move seus longos cabelos. Assim como os aconchegos que distribui.
   Há quem diga que a salvação do mundo está nas mãos de gente como esta: pobre alma solitária carregada de amor e leveza. Enquanto isso, soprando seus anseios, descansa serenamente junto as asas. Descansa e sorri profundamente, como quem flutua sobre si.

domingo, 1 de setembro de 2013

Insanidade







"Eis aqui a depravação do medo vangloriando o imperfeito que o dissemina e incendeia. Eis aqui todo o receio que talvez, ou jamais, pensasse em existir. Eis aqui também, um curioso ser denominado imprevisto alheio que se joga por cima dos cadáveres que arruínam toda essa extensão."
 
Pouco se sabe daqueles males que atormentam a alma, aqueles deslizes que deixam o poço mais fundo e a dor mais insistente. Ainda dizem que  tempo poderia curar, que as mágoas passam e os dias se arrastam. E que o mundo pode parar de girar. Blasfêmia! Nada sabem aqueles seres que vivem da hipocrisia, aquelas intituladas felizes almas que se desvanecem em um torpor sôfrego e limitado. Nada sabem aqueles  que vagueiam por entre o pólen da arbitragem confusa. As flores nem sempre compõem a beleza necessário que esperamos. Nem sempre a beleza nos convém, nem sempre o necessário nos convence.
Numa prece já longínqua pedi aos deuses mais ironia no destino, mais controvérsias e desencontros e eles - esperando por isso- atenderam prontamente aos meus pedidos. Encobriram tão bem o descaso que me fizeram a rotina dos dias uma implacável companheira, astuta e imperceptível. Talvez os deuses não sejam o bem que esperamos, talvez nem os deuses entendam os anseios diabólicas que a alma põem- se a elaborar quando entra em conflito com a identidade. Insano!

E enquanto redige os mal escritos e inconscientes grafos bebe seu café já morno devido a lógica do tempo, e pensa se o mal que lhe aflige não é mais que a denominação de loucura.

domingo, 18 de agosto de 2013

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Tuntum 1..2..3..Tuntum 1..2..3..Tuntum 1..2..3..
Bate assim lá dentro bem compassado. Tuntum 1..2..3.. Tuntum 1..2..3..
Imersa em si, ouvindo nada mais do que a pulsão lá dentro, como se o mundo nem existisse e o calor lhe faltasse. Fecha os olhos, vê a escuridão e sente. Tuntum 1..2..3.. Tuntum 1..2..3..
E já nem chora mais, porquê o que sente é paz. Revoltosa em ilusões, como um sopro do nada que leva tudo. Tudo que ainda restou. 
O que a brisa não leva se desfaz em canções ritmadas pelas batidas compassadas que brotam de si e compõem a sinfonia que a fere e condena, dissolve e eleva. Tuntum 1..2..3 Tuntum 1..2..3..
 E sopra levemente um murmúrio onde deleita-se suavemente, e sussurra gentilmente os doces anseios que a velam. Procede o mantra que conduz as batidas, produz as cores que à envolvem delicadamente dando forma e luz ao seu ser. 
Dorme embalada pelas confissões que a desatinam, e desdobra-se em danças rítmicas no lençol azul celeste que contorna suas formas e, melodiosamente, da cor ao sonho.
Tuntum 1..2..3.. Tuntum 1..2..3..
Talvez a morte seja assim, compassada. Ou talvez seja a vida um breve instante onde um sopro qualquer nos vele. Ou o vazio, talvez nada nos defina e tudo o que  se pode ouvir com clareza são as mórbidas batidas que impulsionam o viver. Ou a ilusão.
Tuntum 1..2..3 Tuntum 1..2..3..

sábado, 10 de agosto de 2013

Um pastel

As mãos podem até tremerem nesses momentos e as pernas bambearem, mas a consciência sempre será mais inquisidora, sempre será a chefe da tua alma. Ou talvez seja a alma a extensão do outro. Ou talvez sejamos todos um bando de tolos que saem pelas ruas gritando e exigindo, que saem distribuindo aos ventos seus argumentos, e esquecem dos pobres diabos deitados nas esquinas cobertos por plásticos, tentando desvencilhar a morte, a fome e a repugnância que causam. São as vozes dessas pessoas que eu quero ouvir, são as exigências dessas almas que são reprimidas pelos olhares que dispensamos com desprezo, são eles que devem exigir. Quero ouvir de novo , e de novo e novamente a voz dessas pessoas agradecendo por um pedaço de massa frita com carne. Eu quero ouvir de novo “ Muito obrigada minha filha, Deus te abençoe”. Mas eu queria mesmo era poder ouvir isso sem que depois,o desdentado e maltrapilho ser, se escondesse por debaixo de um plástico. Se esconde porque chove e dorme porque distrai a fome, mas na verdade eu diria a esse senhor que quem teria de se esconder somos nós, por distribuirmos discursos cheios de exigência , por sermos tão poucos humanos em um lugar que bonito mesmo é ser o contrário do que se exige, bonito mesmo é ser hipócrita.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

:: desempoeirando ::


Talvez nem ela mesmo creia na fé que a sustenta e na audácia dos atos que está colocando em prática. Talvez nem imaginasse que todo esse poço de doçura e aconchego, de carinho e afeto coubesse em seu peito, e a tomasse de um modo tão singelo e tão descontraído. Sim, porquê é preciso de sorrisos para que o coração baixe sua guarda, destranque suas tramelas, e espie pela fresta. 
Talvez nem imaginasse que sair andando por entre desconhecidos e sorrir para todos iria proporcionar tamanho prazer, aquele prazer escondido e engraçado que você sente quando vê que desacomodou alguém. Parece doido não é mesmo, essas bizarrices que acontecem diariamente, como quando você tropeça em alguém que lhe dá o melhor olhar de compreensão e te abraça com toda alma que sai pelo brilho da sua singular pupila.
Ou talvez ela sinta aquele êxtase que a percorre quando acorda e vê que o sol vai acolhendo a todos mansamente, como um velho com o sorriso escondido por entre sua longa barba branca e sua expressão de felicidade de rever um neto querido. Esses , definitivamente, são os melhores dias.
Ela nem sempre é só, nem sempre é toda, nem sempre é tudo e todos. Talvez nem seja e talvez nem pense sobre o que talvez ache que seria conveniente. 
Talvez ela só goste de metáforas que ficam perambulando o mundo em busca de alguém que as tomem e faça sua casa nas curvas das palavras. Ou de alguma letra.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

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Talvez preferisse a solidão , porque estar com o outro fosse devastador demais. Faz pensar no depois, se haverá depois, se haverá mais carinhos ou - como um outro - nada, só palavras soltas em momentos inoportunos. Ah! Talvez quisesse somente sair por ae sem rumo, andar e encontrar alguém que escutasse suas lamúrias e depois segurasse sua mão, como em um ato fraterno. Nada de carícias, nada de carinhos, nada de palavras bonitas.
 Nessas noites que teimam em passar, os livros se acumulam na prateleira , mas nem isso a comove, não caberia num momento como esse, a simpatia e o amor do outro. Não, definitivamente. 
E não sabe nem porque as lágrimas insistem em se derramar sobre sua face. E não sabe nem nada, nem tudo. E não sabe e chora. Essa história de viver por amor, de viver intensamente os sentimentos, isso só serve pra achar que somos capazes de suportar tudo isso. Quanta mentira! 
Talvez o recato, aquele que você era e pretende ser, talvez esse seja o caminho. Mas enquanto isso, chora nas raras noites em que o sentimento faz de si uma casa e, inesperadamente, a toma. E se afoga.

sábado, 6 de julho de 2013

Desestrutura da confissão.

Hoje sentei naquele canto do jardim onde quase ninguém percebe que existe. Pelo meio das flores, galhos e restos de folhas que habitam o chão, longe do que pensam ser a solidão, estava em paz. Há tempos resguardava a vontade de viver essa solidão sem remorsos, mas há aqueles que não entendem essa vontade de resguardar-se dentro de si.
Hoje até acordei mais plena, mais cheia de vontades e desejos, deixando-me levar pela brisa leve que bateu quando abri a janela do quarto. Sabe de uma coisa, vou sair mais um pouco, estender o sonho pelas ruas frescas esbaldando-se em sorrisos e indagações toscas.
Confesso: hoje levantei com aquele sorriso deitado no meu ombro, enlaçando  minha cintura, e me pareceu que a paz estava ali, e que o caminho estava livre para viver sem pudores. É nesses dias em que o sol entra discretamente pela fresta da janela no amanhecer,em  que eu vislumbro o carinho ali pertinho de mim, em que eu quero aninhar-me mais e deliciar-me no outro, é nesses momentos que  encontro a felicidade.
Confesso outra coisa: não é nada fácil abir caminhos no coração em que os outros possam invadir, mas quando eles invadem- quando atravessam todas as armadilhas e códigos que o segredam-  fica mais leve, como se o fardo pudesse ser suportado,  aconchegado em um abraço, batesse mais forte, vivesse.
Sentei na grama que cobre serenamente toda a extensão que meus olhos enxergam, e o que eu vi foi o céu - coisa simples né?! - foi todo esse clichê de imensidão que , por um instante, me pareceu palpável.
Talvez eu nem tivesse um enredo quando as palavras foram se desenrolando por aqui, mas é que quando as palavras aparecem é preciso, com uma ânsia compulsória, registrá-las em algum lugar . O que eu quero é só imprimir toda inquietude que me toma, talvez a destreza com as palavras não seja meu forte, nem a leveza que por vezes anseio em transmitir, nem a coerência que penso ter. Talvez eu seja somente mais uma lunática a espera de um manicômio. Ou talvez sei la, talvez só seja, sem definições, sem delimitações, sem devaneios. Só sonhos na estrada.

sábado, 29 de junho de 2013

Recorte



Pousou o copo sobre a mesa, inclinou-se delicadamente e o encarou destemida. Encarou-o com toda sua coragem, afinal já tinha tomado umas boas doses de vinho. Olhou- o mais a fundo, tentando decifrar o que haveria de ter por trás daqueles olhos incessantes que a fascinavam depois de uma noite de sexo ou um abraço. Observou atentamente aqueles olhos inteligentes que lhe delegavam uma incógnita tão maravilhosa e excitante que era praticamente impossível mirá-los sem que um desejo interno a consumisse.
Desencanta aos contos e faz as noites intermináveis. Talvez seja o carinho, ou o modo como a toma delicadamente nos braços, que faz com  que se sinta tão especial e tão tola por ceder , contraditoriamente, aos seus encantos.
Então volta ao seu ponto de partida mais uma vez, toma seu copo novamente e saboreia o doce amargo que a deixa mais embriagada do que feliz, menos dramática, mais sonolenta, mais encantadora, menos perigosa.  Por detrás de todos os sonhos que ostentava antigamente, estava o desejo de sucumbir ao braços do outro imperfeito, desalinhar-se e descompor-se naturalmente- ou selvagemente.
Inclina-se e o toma. Roça sua mão delicadamente por entre as madeixas que moldam o rosto que prende sua atenção. Há quem diga que isso seria princípio de algo, mas nós - os reais cientes- sabemos que tudo não passa de um acordo. É necessário também suprir as necessidades do aconchego, do querer estar perto, do carinho. Nessas horas a consciência dá uns minutos de folga e deixa-os em paz, deixa-os viver um pouco mais.

terça-feira, 25 de junho de 2013








Então você sente que é completa. É até estranho constatar isso, é diferente o modo  como você se vê agora, o jeito como você encara as coisas com naturalidade e transparência.
Tudo vai se encaminhando rumo ao incerto, mas agora isso não é mais problema. Você já superou aquela ansiedade toda, não é mais necessário ter o controle das coisas, porque elas acontecem, e você as entende.
Por muito tempo você tem buscado isso, aquela paz interior, a segurança de poder andar com os ombros posicionados corretamente, sem receios de alguém achá-los pesados demais. Você tem o controle, da sua vida, das suas decisões, das relações, dos amores e dos erros.
Lembra nitidamente como era cansativo carregar o peso do outro ser que habitava dentro de si, então você decidiu: pegou aquela tesoura enferrujada que estava no fundo da tua gaveta e arrancou o dito encosto de ti. Você lembra dos detalhes não é?! Sabe que foi extremamente dolorido livrar-se daqueles pretextos incoerentes, daquele medo tinhoso que te deixava sem reação. Todavia você tinha de fazer isso, foi pro teu bem menina!


domingo, 23 de junho de 2013

Não era bem assim.

E então entrou no corredor da morte. Caminhava lentamente analisando as paredes com lajotas que, outrora, já foram brancas, a meia luz amarelada que , vez  ou outra, piscava sinistramente como nos filmes de terror. Cautelosos passos que se arrastavam lentamente, seguindo as histórias que jaziam naquele assombro. Dizem, que ali já fora palco de intermináveis noites de amantas que se deliciavam na carne um do outro, ou mesmo de assassinos horrendos, vestindo suas máscaras e dilacerando os corpos com suas serras. Zumbis não, ainda não pelo que dizem. 
Talvez, ela pensa, não tenha sido uma boa ideia descer as escadas, talvez preferisse ficar aconchegada no conforto de suas cobertas, dormindo e sonhando com belas princesas e doces fadas. Ironia demais para quem se aventura em corações alheios.
Vai adentrando e ouvindo o vento açoitando la fora, ouvindo a porta bater ao fundo e sua consciência gritando:  
-Volta, ainda dá tempo! 
E continua, porque o medo é menor que o receio de falhar, é menor que a coragem que a transborda, é menor do que a dor e a dúvida que a perseguem todo dia, toda noite toda hora. Seus encantos não são mais os mesmos, deixou eles perdidos em qualquer porta meia aberta que revelava a bondade que tanto idolatrava e nunca alcançaria.
Então chegou ao destino  e entregou ao que ali vinha fazer , e tentou achar as respostas , e resolveu que , em vão, tinha ido parar ali. Em vão, mais uma vez, outra vez e assim sucessivamente.
Volta , faz o caminho de novo, dessa vez as paredes , a luz amarelada, as portas meia abertas já não são tão desconhecidas, já não assustam mais. Acostumou-se e assim sempre foi.
- E assim sempre será, eles dizem.
Mas vocês sabem como é o coração dos corajosos, cheios de fervor e confiança, cheios de um não sei o que que os move e faz com que continuem procurando algo que os contente.
E então o que era pra ser algo de terror e assombração, virou algo banal, um texto perdido em meio ao egoísmo de um ser . Um ser, sei lá.

terça-feira, 18 de junho de 2013

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Te lembra pai quando você falava que queria algo bom pra mim? Ou quem sabe, mãe, você ainda recorde das noites que passava comigo fazendo com que eu me esforçasse nos trabalhos escolares. Com toda certeza vocês ainda lembram dos meus primeiros passos, das primeiras palavras e indagações, das dúvidas e incertezas, dos primeiros acontecimentos da fase adolescente e da angústia na hora da decisão no que que seguir profissionalmente.
 Mas sabe pai, depois de um tempo a gente começa a caminhar com as próprias pernas e chega uma hora que somos confrontados diretamente com nossas decisões e sobre qual ideais seguimos, e é exatamente nessa hora que sabemos que somos responsáveis por nós, ou nos tornamos adultos, se preferirem o uso desse termo. Fui confrontada pelo amor do meu país, confrontada com os princípios que tanto defendia nos meus discursos sobre igualdade e amor, confrontada com o meu comprometimento pelos outros.
 É engraçado sabe, a gente viveu tanto tempo estagnado, conformados com a  sorte de vivermos em um lugar em que a expressão era livre e todos nossos sonhos poderiam ser realizados se, com muito luta, fossemos firmes no propósito de prosperarmos. Quanta ingenuidade , quanto tempo perdemos fortalecendo um sistema que, indiretamente, fortalecia nossa ignorância frente ao que realmente era importante.
Hoje eu percebi que fomos educados como deveríamos ser, mas esse processo, contraditoriamente, se deu quase que imperceptivelmente , senão se extinguindo, nos espaços escolares. Porque na verdade, foi a rua que nos educou. Foram nos encontros no chão de terra batida depois da aula, nas calçadas já rachadas pelas raízes que eu aprendi o que é companheirismo. Foi ali na rua pai que eu aprendi o real significado de se defender, e que, mesmo lutando para tirar a bola do colega, lutar para ter o direito de correr e caminhar por ali, sorrir e abraçar-se sem medo do olhar impetuoso de alguém que se julgasse melhor que eu, possivelmente com mais poderes aquisitivos.
Crescemos tão conformados a sermos os sujeitos em que tudo seria " enfiado guela abaixo" , que nossa conformação seria uma caminho certo e pacífico, e que no fim daria tudo certo. No fim, trabalharíamos o dia todo, enfrentaríamos um ônibus lotado -provavelmente em péssimas condições- e, enfim, chegaríamos em casa : um barraco fabricado por nossas próprias mãos, com restos de papéis e latas que achamos pela vizinhança. Talvez não seja sempre assim, mas estaríamos conformados.
O que eu vi hoje são pessoas inconformadas com suas situações, vi jovens ,adultos e idosos falando de seus direitos e - fique atônito- defendendo seus ideais! Você não sabe pai como foi emocionante ver essas pessoas gritando contra seus opressores, falando que o conformismos não as tomou , que na verdade o estopim teria de ser no momento certo. E assim foi.
Vi as pessoas empunhando sua maior arma: a revolta, a indignação com o que lhes é imposto e, nisso tudo, eu vi um futuro. Vi a dita nação coca-cola pronta com seus cartazes e bandeiras, preparando suas gargantas e proclamar ao mundo todo : " O Gigante acordou", "Muda Brasil."
Vieram para as ruas e invadiram sua casa, estão tomando as rédeas da sua nação, estão mostrando  que "povo que não tem virtude, acaba por ser escravo".
Todos estão atentos , e fique atento o senhor também , meu querido pai, os caras pintadas estão novamente tomando as ruas, a geração paz e amor está se reconfigurando e está cobrando com todo o poder que têm a ordem e o progresso que lhe foram prometidos. "...se ergues da justiça e clava forte, verás que um filho teu não foge à luta".


sábado, 1 de junho de 2013

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 Ele fazia bem a ela. E diante disso, nada melhor do que acatar o carinho e a atenção que lhe era dispensada e se acalentar nos braços do conforto. Afinal, pra que amar!

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Do teu para ti ou conselhos a serem seguidos.

Sopra o café quente em uma noite fria querendo estar junto ao calor do outro. Sofre calada com essa ânsia sentimentalista que vem adquirindo aos poucos e que a torna sufocante. Talvez haja implícito nisso tudo a vontade da mudança, do querer ser sentimentos que sempre foram distantes, talvez queira um novo sonho.
Passa os dias, passa as horas passa tudo e nada se passa. Uma incógnita que, difícil de ser revelada, se torna parte da caminhada. Doce criança não aprendestes usar de forma adequada seus afetos, e se revela demasiadamente tranquila em relação a não despachá-los, e tranquilidade assusta.
Certo dia me disse que o amor não lhe era permitido,ou melhor, que não se permitiria amar as carícias que lhe dispensavam, nem mesmos as palavras doces que lhe eram entregues ao pé do ouvido. Criança, por que te torturas tanto? Não sabe que podes se libertar a qualquer hora desse refúgio que a conforta na maioria dos momentos? Não sabes que conforto não é afeto?
Me contou outrora que se entregou certa vez ingenuamente, e que tudo teria se encaminhado maravilhosamente bem se a sua, de novo, ausência de palavras, não houvesse terminado com as expectativas.
Acontece que a dúvida do entregar-se ou não, dizer ou calar-se a corrói. Pense querida,ela me disse, você não sabe até que ponto suas palavras e carinhos vão ser adequadas, não sabe até que ponto seu ímpeto do querer estar perto lhe será positivo, não sabe se esse ,recém adquirido, sentimentalismo é o certo.
Pois bem minha jovem, tuas dúvidas até estão certas, mas não vale apena se martirizar por elas. Tenha a bondade de perceber que sua evolução está acontecendo, você consegue até demonstrar carinho! Uma revolução!
Então minha jovem faça o favor de parar com as neuras que a deixam mais louca, faça-me o favor de aproveitar essa demanda de carinho que está disposta a doar, e não se preocupe com os que, por receio, não às querem receber. Faça-me o favor de distribuí-las e contente-se com o retorno que tiver, afinal você bem sabe como é estar enclausurada nos limites do não expressar-se carinhosamente. Faça-me um favor minha jovem, vá viver!

domingo, 26 de maio de 2013

Sobre o sincero.



Veja bem amor, deita por ae e fica observando as estrelas, deita em qualquer canto que te acolha e admira as rasuras da parede, o piso gelado e abriga em teu coração o calor que transmite em teu sorriso. Se tu soubesse , o quanto eu gosto do balanço dos teus cabelos em dias onde o sol se embriaga por entre as folhagens e revela os detalhes imperfeitos que me fascinam. Confesso a ti agora como o balanço das tuas mãos junto as minhas me fortalece, como me encanta teus olhos irônicos quando se prendem aos meus, e se deleitam em mil desejos.
Outro dia, quando a distração o tomava, vi meus ímpetos de felicidade tomando tua forma, o cabelo desgrenhado contornando as linhas da tua áurea. Ah se por um descuido você me olhasse naquele momento, descobriria meus olhos em chama percorrendo a tua forma, o meu afeto te construindo em mim. 
Se qualquer dia formos loucos o suficiente, eu até faria todas aquelas juras de amor que ouvímos nas músicas,e talvez, em um ato de coragem eu lhe tomaria firmemente e lhe diria que me entregaria a ti, que aceitaria a vida como ela é, ou dançaria tango no teto. Mas se as palavras falhassem, e a música não fosse o suficiente eu apenas te olharia, mexeria em seu cabelo, te daria meu sorriso, te abraçaria e, então, certamente você saberia que eu lhe amaria.
Hoje eu aprendi amor, que eu tenho em ti meu conforto, que tudo é tão passageiro que meu carinho será dedicado a ti todos os dias, que meu olhar e meu sorriso sempre te encontrarão e meu abraço sempre será o meu e o teu refúgio.
Hoje aprendi amor, que não são necessárias músicas ou belas palavras, que não são necessárias as declarações que você me fez e nem as que eu julguei importante. Hoje eu aprendi que a minha mão na tua, e o doce balanço que elas seguem quando estão juntas , são suficientes para saber o quanto meu amor se une ao teu. Hoje eu estou em ti o quanto você está em mim.

sábado, 25 de maio de 2013

Aos Sem- vergonhas.





Um brinde ao meu recém amigo que me ensinou a aprovar, gostar e exaltar a sem vergonhice, essa qualidade que , os poucos que têm, são pessoas dignas de minha reverência. Brindo a irreverências desses cidadãos que trazem consigo o calor que lhes é costumeiro, passado de abraço em abraço, toque em toque, e palavras que engradecem nosso ego.
Um salve aos desprovidos de caretices, faceiros de sorrisos. Um brinde aos sem vergonhas!
Sim, porque diz esse meu recém amigo que os sem vergonhas são as grandes pessoas. Particularmente caro amigo, concordo plenamente! Nada melhor do que sair por ae, sem vergonha de ser feliz, sorrindo e distribuindo sorrisos, sem vergonha do que pensa e luta, sem receios dos julgamentos e olhares preconceituosos, sem vergonha do amor que está a se distribuir.
Porém lhe digo cidadão, que cuidados também são necessários quando se ostenta tamanha titulação: há de se regar toda semana toda essa importância com doses substanciais de persistência e paciência, principalmente paciência. Porque convenhamos amigo, haverá Aqueles que dirão que é muita petulância sua invadir todo esse espaço com toda essa aura de alegria. Cuidado amigo, os céticos irão lhe repudiar.
Ademais, lhe direi que estamos juntos, eu e toda legião sem vergonha, pois nada suprimirá a nossa constante motivação do querer o bem, querer espalhar esse amor que nos enlaça e engradece.
Um brinde ao meu amigo, e a todos os Sem Vergonhas!

domingo, 19 de maio de 2013

Confissões










Aventura-se entre os lençóis  aninhando-se no corpo quente que acalenta e põem em chama junto ao teu. "Menina, tu nunca soube que essa aventura poderia ser perigosa?" Talvez, sem nem sequer imaginar, o dito ser possa ser aquele psicopata que tanto fantasia quando lê os romances policiais. "Não importa", o fogo que cruza por entre as carícias, as mãos que desenham corpo a corpo, tudo isso impõem-se sobre essa possível loucura. 
 Velam palavras embaladas pela supremacia dos deuses e, entre, o roubo das asas de Ícaro,  e a retirada dos sapatos de Hermes, são encontradas as curvas do sorriso, desejo dos olhos que se entregam em anseios.
Lá no fundo, como a lembrança que o mundo existe depois da porta, Jack Johnson embala os trâmites. Lembra das formigas brigando, do machado que não corta, dos bisturis, dos cérebros cozidos e, não esqueçe, dos óculos que foram deixados no passado devido a alguma banda. Isso?
Calma, ainda falta a rebeldia da escola, a nerd, a fé, a crença, e o carinho. Estar, permanecer entre lençóis que compartilham as confissões que despertam as chamas. Desenrolam o desejo, encontram-se em fogo, deliniam-se em sorrisos sarcásticos. 
 Lá fora chove, mas o mundo se resume- esta noite- nos contornos da cama que abriga os lençóis compartilhados por loucos psicopatas.


quarta-feira, 1 de maio de 2013

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Há sorrisos e melancolias que velam seu sono, enquanto os pesadelos a rondam. Nem sempre a intenção foi ser uma máscara singela, por vezes pressentiu-se tanto amor que tudo que sabia era ser insustentável. E tudo que era beirava loucura.

sábado, 27 de abril de 2013

Assombro.



                                     


Criada entre becos e vielas, nem sempre sua fé foi suficiente para sustentar a coragem. Andava lentamente guiada pelas sombras dos barracos que ornamentavam seu jardim de desprazeres. Forte menina outrora sustentou o sorriso que já alegrou boa parte daquelas pessoas descabidas que por ali perambulavam. Outra época, outra vida quem sabe.
Vai se desenhando novamente: coração doído, alma perdida. Vai lá, escondendo seus passos por entre os pedregulhos do beco que adentra e encontra ali o consolo necessário, então chora.  Percebe como a dor corta, dilacera e pune, mas mesmo assim chora, porque as lágrimas ainda são possíveis, ninguém as tirou ainda.
Doce criança,  ingenuidade nem mais faz sentido, lhe negaram esse direito também. Doce mesmo, era quando descia correndo as escadarias, com o vento levando seus curtos cabelos negros, com os olhos amendoados percorrendo cada rosto, cada tábua que se despregava e revelava a intimidade dos casais que renunciavam os bons princípios.
Lá embaixo, moleques se misturavam com raparigas, e enquanto uns rolavam as bolas, outros ornamentavam sua bonecas, dividindo-se entre os flertes inocentes que rondam a infância. A menina ainda lembra daquele menino de pele dourada e olhos redondos que a convidava para brincar de roda ou empinar pipa. Recorda dos fins de tarde, onde deitavam naquele terreno baldio no sopé do morro, lembra do contraste das peles, dos risos distraídos, dos planos elaborados, o carinho inocente e o olhar de cumplicidade. Tenra lembranças.
Hoje, o aconchego que lhe abriga, é o sopros dos fantasmas que a atormentam, o olhar vazio dos estranhos que lhe cercam enquanto caminha sem rumo entre os becos, onde as tábuas se despregam e revelam a dor alheia.
 Ah criança, se fosse possível lhe tomaria em meu colo e te aconchegaria no meu abraço, te encheria de afetos e mimos. Se fosse possível reinventaria tua realidade, lhe faria um lugar colorido, onde teu sorriso seria distribuído todo dia e o melhor presente seria te ver dançando sobre as fantasias que você desenhava no caderno desenho. Outra época, outra vida quem sabe.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Ironia




Se não fosse frio, se você não chegasse, se tivesse chocolate, se eu fosse melhor, se as pessoas me ajudassem, se o calor diminuisse, se a dor sumisse, se tivesse uma alternativa, se eu tivesse mais dinheiro, se eu tivesse aquele carro, se eu não tivesse saído, se eu tivesse assistido aquele filme, se eu estivesse la, se eu te perdoasse, se eu me permitisse, se eu tivesse vivido, se eu não tivesse morrido jamais " se" haveria de ser procedido.

sábado, 20 de abril de 2013

Incoerência.







Sábados sempre são regados pelas loucuras e devaneios que a inquietude teima em desenhar pelos cantos do quarto. Seus olhos percorrem as sombras em busca da insanidade,e acham seu livro. Pronto, a carência está suprimida, agora só falta o café.


domingo, 31 de março de 2013

whisky








Nem em sonho imaginaria tal possibilidade. Digo, tudo foi sempre tão prático e mecânico: conhecer, conversar, gostar, namorar, perder e recomeçar. Tudo foi sempre tão assim - pode dizer superficial? - que jamais imaginaria aqueles olhos negros presos insistentemente em seus planos.
Diz planos, porque em meia hora já havia planejado os momentos do noivado e os preparativos do casamento, a longa viagem pelo Egito, Bélgica e, depois, Itália. Tudo, absolutamente tudo, regado pela maestria daqueles olhos serenos e incessantes.
Se seus companheiros de festas estivessem ali, diriam certamente que haveria outras possibilidades mais interessantes e vantajosas do ponto de vista do desejo. Mas, seus amigos não estão ali , e mesmo que estivessem, nem com a tentativa mais sagaz de persuasão seria convencido. Não com toda aquela calmaria lhe fitando encantadoramente.
Nem nome , nem passado lhe importavam agora e se ela lhe convidasse pra fugir dali naquele instante, com certeza ele estaria  pronto. Laboriosos olhos que me fascinam e alucinam de tal maneira, que nem mais sei quanta bebida resta no meu copo, nem mais sei o que ei de fazer caso, por desventura, azar ou insensatez, não tome fixamente seu corpo no meu, e lhe peça, por misericórdia, apenas mais um pequeno delírio de paixão ou satisfação carnal.
Impasse, olhos que lhe chamam, mãos que tremem, coragem e covardia o tomam, mas a atração o envolve a tal ponto que nem palavras precisam ser ditas, o que se passa no desejo já é suficiente. Fogo que se cruza.
 " Uma bebida pra moça dos olhos incessantes, por favor"- peço gentilmente ao garçom e, ainda aviso : "Seja gentil, não se sabe a fera que existe por detrás da linha tênue."
Ela aceita, e repentinamente vem a mim , como quem vem ao encontro do seu inferno:
" Vamos, eu dirijo!" 

quinta-feira, 14 de março de 2013

Retrato.




Sentadinha la no canto do jardim, está sentada novamente a menina . Em meio a terra vermelha e os galhos de árvores que pendem, vai formando pequenos círculos na terra com um graveto que por ali achou. Doce pequena, está ali com toda sua serenidade habitual, seus olhos meigos voltados fixamente para o chão, como se estivesse produzindo a mais bela obra de arte. 
  O vestido que usa ,outrora já foi rosa claro, agora se mistura em nuances com o vermelho da terra meia molhada.O laço de fita, certa vez ,já foi preso em um belo tope no alto da cabeça, hoje se limita a somente não deixar os fios caírem sobre o rosto, e o restante da fita vermelha lhe cai pelos ombros, juntamente com os cachos negros que lhe conferem a fineza de uma boneca. Uma triste e decadente boneca.Ainda lembro dos dias em que saltitava alegremente pela casa, rodopiando seu vestido em meio as histórias que sua avó lhe contava, distribuindo alegria e abraços para os criados, e ainda mais beijos para seu pai. Descia alegremente pelas escadarias lustrosas de nossa casa assoviando aos quatro ventos as cantigas que Tia Preta, a cozinheira, havia lhe ensinado e, dito, que atraíam bons fluídos. 
  Lembro ainda, do dia em que plantou no quintal uma muda de rosa que o jardineiro havia lhe dado, então depois de todo o processo do plantio me chamou e disse:  " Mamãe, o vovô disse que  essa rosa é que nem a gente, e que as pétalas dela vão cair algum dia, mas que não é pra mim ficar triste, porque se eu cuidar direitinho dela, mesmo ela estando triste e se quebrando, vou conseguir fazer as folhinhas voltarem, porque elas se alimentam do meu amor." E completou tudo isso com um olhar de felicidade , como se houvesse descoberto o segredo de tudo e, depois, me presenteou com um de seus melhores abraços. Doce menina, já nem tão grande e tão sabida, puxou ao pai. 
  Esses dias eu lhe disse que livros não eram feitos para ficarem perto da terra, então. novamente ela me olhou com aqueles grandes olhos e disse que " a terra é a vovó dos livros, porque é ela quem cria a árvore que da vida ao papel das letrinhas, então os livros gostam da terra, porque eles também tem que matar a saudade da família." Eu ri gentilmente e tive que concordar.
  Hoje ela está la, seu olhar faceiro e seu riso alegre já não mais ocupam essa casa, está lá no cantinho do jardim , com os olhos cheios de lágrimas,e na barra do seu vestido, agora só pairam cantigas tristes, fúnebres melodias que Tia Preta nem sequer mencionou, mas que a vida se encarregou de ensiná-la. Seu livro está em seu colo e a capa de camurça é manchada pelas lágrimas que escorrem lentamente de seus grandes olhos de desesperança, ela o alisa como se fosse uma preciosidade, mas não arrisca abri-lo. 
Van Gogh certamente gostaria dessa cena e,sem dúvida alguma,as cores sóbrias predominariam a não ser por uma rosa extremamente vermelha que paira no canto da tela, rezando uma nova fase. Por enquanto, a dita flor continua despetalada e só se vê destruição e dor. Quem sabe  Van Gogh venha   quando   a rosa já exala sua devida beleza e , junto a ela, estará uma menina de cabelos negros ostentando o mais belo sorriso que se possa imaginar. Quem sabe um novo tempo venha a começar. Talvez.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Segredo.





                            Enterra teu sorriso no meu ombro e suspira um desejo
                            Enlaça teus braços no meu corpo
                            e presenteia-me com um abraço gostoso
                            Pousa teu olhar sobre minha face 
                            e brinda-me com caras que me consomem.
                            Ah! Quanta insanidade nessas entrelinhas.
                            Não é da minha índole falar sobre esses princípios inesperados
                            Mas, quem sabe a sorte me convença
                            de um outro caminho.
                            Talvez  eu queira que esses teus olhos doces
                            me acalmem e deleguem sua sentença:
                            uma ironia que tu despertastes sozinho,
                            um medo que acaba
                            quando teu afago pousa em mim.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Anexo 1

  






Acorda cedo e ouve a janela batendo com o vento. Entre tropeços consegue atravessar os calçados, camisas, carregadores e o violão que estão jogados pelo seu quarto. " Uma xícara de café, por favor. Eu mereço". Em outros tempos, sem relutância alguma, completaria o dito café com um outro pedido: " e um amor" , os dois quentes de preferência. "Esqueça o Caio e apague de vez essa história de amor", vamos somente apreciar a bagunça do teu quarto, um café quente e o vento frio que entra pela tua janela.
   De súbito  olha pro violão jogado no canto, lembra que mês passado até trocou as cordas dele com o incessante pensamento de , talvez, aprender a tocá-lo. Ficou no talvez, empoeirado do lado daquele abajur quebrado, abrigando em sua capa aquela palheta verde esmeralda que você achou tão bonita.
  Ah se a mente desse folga, iria correr sem pressa alguma pelas ruas arborizadas e espaçosas  onde você moraria caso , por ironia do destino, a insensatez não a dominasse. Levaria uma vida saudável, comendo frutas e verduras, alimentando-se corretamente, praticando exercícios regularmente. Mas uma vida assim não seria facilmente persuadida pelos hábitos que veio adquirindo, além do mais, nunca poderia tomar leite com Nescau quando bem entendesse, quanto mais misturar aquela Vodka com a cerveja que te ofereceram. Não, os vícios lhe definem melhor. 
   Termina o café e joga, delicadamente, o recipiente em cima da cama, mais precisamente do lado do travesseiro, no meio da cama revolta. A noite foi medrosa, veio com aquelas manias de pesadelos e indecisões, e não deixou o descanso ser pleno. Outra coisa que atrapalharia a vida correta que planeja ter; o prazer do permanente acordar. É que quando a noite nos honra com insônias, ironias e risos, não se pode sequer imaginar como seria um tranquilizador e confortante descanso e, mais, não seria conveniente trocar a insanidade pela súbita serenidade.
  Acaba de achar a escova de cabelo que havia perdido, no meio da camisa vermelha , atrás do tênis (que promete a dias lavar), em baixo da cama. Hora que tudo isso já é um progresso, não é todo dia que se encontram coisas que foram perdidas a semanas."Malditos gnomos, sempre brincando comigo!"
  Então deixa tudo assim mesmo, revolto em si mesmo, até porque, as idéias fluem melhor quando a bagunça reina, a obra de arte fica mais excêntrica, e, quem sabe, até engane melhor aqueles que acham que a sensatez a move constantemente. Café, violão, bagunça e leite com Nescau: não há motivos coerentes para abandoná-los.

sábado, 2 de março de 2013

Ensaio.







  Ele a envolveu delicadamente tomando-a em seus braços com destreza e prudência. Aos poucos foram se desenrolando suavemente e descobrindo as linhas do outro: mãos que pairam sobre o corpo em chama e bendizem a graça do encanto que os envolve.
  " Vem comigo"- ele sussura gentilmente em seu ouvido. E como não há escolha, ela deixa-se desfalecer em suas súplicas secretas de amor.
   Na penumbra do seu quarto, envoltos a meia luz, sintonizados na frequência do ser carnal, fervoroso e passivo que os tomam, encontram seus desejos no olhar que se cruza. 
  O olhar é o grito do desejo, vislumbrando o fervor que os consome, a censura que os protege, o anseio pelo tomar-se pela luxúria.
  "Me segue"-ela diz, e graciosamente o conduz pelos mistérios que a envolvem. Enlaça-o, abraça-o, sente-o ofegante e perplexo com o que está por vir, chama-o a descobrir sua cobiça. Desenrola toda sua graça e convida-o a cobri-la de imprudência e rudez.
  E a penumbra é a única prova de que o enlaço acontece, rodeia-os e os toma com todo recato necessário. Só os olhos sabem o fervor que a alma doa, e que, só a luz do raiar do dia abrandará seus corações.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Luto de letras.

Há horas que as palavras não brotam e o medo assombra. De tempo em tempos a voz se cala, as mãos tremem e o papel não consegue ser inspirador, a vida da uns tropeços e, então, o escrever não consegue ser desabafador.
Há aqueles momentos em que conspirações teimam em fazer parte do seu dia a dia, em que a lamúria fica persuadindo a coragem, e a sabedoria se esconde no viés da dor e, então, estamos abandonados.
Há nesses momentos a telepatia do sofrimento, compartilhando e sentindo a desesperança que os cerca, desentendendo o destino regrado que os surpreende.
Dessa vez foi assim, Dona Morte não foi nada zombeteira, chegou esguia e serena e  olhou-me silenciosamente pois sabia que seus passageiros me eram conhecidos. Foi lá, seguiu sua alegoria e sem pena alguma nos deixou com nossas lamúrias.
Quando isso acontece , os textos ficam assim mesmo, de luto, pequenos.




Fica em paz Mateus!